Patadas y Gambetas

Ídolo do River, Ponzio é adorado pelos fãs do Boca e até por Mauricio Macri
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Tales Torraga

Se fosse no Brasil, diríamos que “o pau cantou”.

Mas é na Argentina, e River Plate e Rosário Central “se dieron de lo lindo” no alucinante 0x0 deste domingo no Monumental. Os dois times trocaram pontapés do minuto 0 ao 98 para assombro de Jorge Sampaoli, novo técnico da seleção, que viu parte da batalha nas tribunas ao lado de Rodolfo D´Onofrio, presidente do River.

E se há batalha, logo há o espírito de luta inigualável do volante Ponzio, grande ídolo do River. Não é exagero: ele é adorado até pela torcida do Boca Juniors.

Leo Ponzio, o ''rei leão'' – Infocampo / Reprodução

Ponzio foi lúcido ao distribuir passes e orientar seus amigos neste domingo. Mas ele fez muito mais no Monumental. Tratou cada bola como a última sorvida do mate caliente no frio de junho, com uma entrega impressionante até mesmo para a Argentina sempre acostumada a deixar a vida no gramado.

O volante tem 35 anos e deve se despedir do futebol neste ano – para tristeza de Mauricio Macri, presidente da Argentina, seu fã declarado.

Ex-mandatário do Boca, Macri já falou que o maior erro da sua gestão foi deixar escapar a contratação de Ponzio quando ele ainda era promessa no Newell’s.

A própria torcida do Boca, em caso raríssimo na história, banca Ponzio em todas.

Repete sempre que ele era um jogador para o clube, com todo este espírito de luta – e esta mística guerreira de Ponzio fica ainda mais evidente em seus duelos contra Gago, volante refinado e muito distante da valentia entregue pelo #23 do River, que além de se matar em campo age como alguém de realmente 35 anos na frente de um microfone. É sempre respeitoso. Não tira sarro, não cria polêmica, não diz que vai dar tapa de uruguaio, diz que só quer voltar para o meio do mato curtir a vida, os asados e os amigos e que a vida é muito mais que 22 caras correndo atrás da bola.

Outra grande barreira quebrada pelo fenômeno Ponzio é ele hoje ser garoto-propaganda de uma importante fabricante de barbeadores. Na sempre extremamente passional Argentina, é raro demais um jogador do River ser usado para tais fins justamente pela rejeição dos contrários do Boca.

Mas isso não ocorre com Ponzio.

Ocorreu, é verdade, na noite do gás pimenta, quando ele teve os olhos mais queimados entre todos, mas isso na verdade era a evidência da paixão enrustida.

E ela foi ouvida bem alto na noite de ontem no Monumental nos instantes finais do festival de patadas de River e Central:

A Leo Ponzio no lo vamos olvidar

Ele é mesmo inesquecível.


Argentina de Sampaoli ante o Brasil terá Messi-Icardi e Mascherano central
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Tales Torraga

Jorge Sampaoli – ''El Pelado Sampa'' para nosotros, argentinos – está em solo portenho desde o começo da semana. E embora vá ser anunciado oficialmente pela AFA só na próxima quinta (1º), ele já está se empapando de futebol argentino e conversando com tudo e com todos para achar um esquema que lhe dê boa base para começar seu tão observado trabalho justamente contra o Brasil de Tite.

O ''amistoso'', que para os argentinos não vai ter nada de amistoso, será em Melbourne, no dia 9 de junho, às 7h (de Brasília).

São muitos os que apostam em Bons Aires que Sampaoli vai chorar neste domingo.

Ele estará no Monumental para ver River x Central. Para os que não sabem, Sampaoli era praticamente um barra-brava do River que invadia o estádio junto com a multidão porque não tinha dinheiro para pagar ingresso. E agora voltará ao maior templo do futebol portenho simplesmente como o técnico da seleção argentina.

É inacreditável a história da sua carreira quando ele se jogou como técnico de tal maneira no começo que foi ao Peru só com uma roupa do River e uma mala nas costas, como mostra esta imagem. Traremos detalhes adiante.


A seleção que Sampaoli pensa hoje é contada em baixo volume. Ele está obviamente sob ordens da AFA de não dar declarações oficiais até ser anunciado, mas se aproximar informalmente dele e de seus inúmeros colaboradores é saber que sua Argentina contra o Brasil vai atuar em um 4-3-3, mudando o sistema para as Eliminatórias para um 3-5-2 ou um 3-3-3-1. Os amistosos ante Brasil e Cingapura vão servir, claro, para testar as ideias para as competições oficiais.

No gol, sua ideia é colocar Guzmán, do Tigres, do México. Chiquito Romero iria para o banco, em que pese o recente título da Liga Europa com o United.

Na linha de quatro na defesa, a grande novidade – Mascherano será escalado como central ao lado de Mammana, do Lyon, ou do rodado Otamendi.

A lateral-direita será de Gabriel Mercado, seu atleta no Sevilla; a esquerda vê uma disputa entre Tagliafico ou Pinola, com vantagem ao segundo, do Central, hoje o melhor na posição na Argentina.

O camisa cinco será Banega, que vai jogar igualzinho ao que fazia em seus inícios no Boca, há dez anos. O meio-campo vai seguir com Leandro Paredes, ótimo na Roma, e Di María, que dispensa maiores comentários.

''Será um meio-campo mais vertical que de posse de bola'', nos antecipa um de seus colaboradores.

O ataque contra o Brasil terá Messi na direita, Joaquín Correa ou Papu Gómez na esquerda e…Icardi como camisa 9. A única possibilidade de isso não ocorrer é ele não se recuperar bem da sua lesão muscular. Aí a vaga será de Alario, do River.

O lema da vida de Sampaoli é no ''escucho y sigo'', refrão de um grande sucesso do rock argentino, Prohibido, do Callejeros, que ele até tatuou no braço. A música é um verdadeiro hino portenho e vale ser escutada. Sampaoli não escuta e segue – segue trabalhando, falando nas estrelinhas e começando a sempre tensa relação com a mídia argentina de excelente maneira. Seu fluxo de contatos é ótimo, a ponto de o blog antecipar ainda em março que seria ele o novo técnico da seleção.

O trato de Sampaoli é tão aberto que muitos o aconselham até a mudar de visual e parar de se vestir como um ''pendeviejo'', versão portenha do que seria no Brasil um ''vovô garoto''. Que nada. Ele tem 57 anos e sabe o que faz da vida. E para a sorte argentina uma coisa que ele, notório obcecado, sabe como poucos é armar times.

Cuidate, Brasil. El Pelado Sampa chegou.

Sampa gesticula em Buenos Aires – Taringa/Reprodução


River ressuscita face ‘galinha’ e perde chance de ser o melhor de todos
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Tales Torraga

Incrível. Em noite de enorme festa pelo seu aniversário de 116 anos, e jogando em um Monumental de Núñez onde costuma atropelar os rivais, o River Plate de Marcelo Gallardo mostrou sua pior cara nesta noite em Buenos Aires: a já esquecida face ''galinha'', como a equipe ficou famosa por dominar as fases prévias e acabar ''morrendo na praia'' em jogos decisivos por décadas e décadas.

Foi, em escala mais leve, más liviana, exatamente o que aconteceu nesta decepcionante quinta portenha de derrota de 2×1 para o Independiente Medellín.

O River precisava de apenas um empate para ser ''campeão da fase de grupos'', como sua torcida estava tratando esta conquista tida como mais do que certa.

Agora, o River tem pelo menos Atlético-MG e Lanús à frente. Os jogos que completam a quinta ainda podem alterar esta ordem e colocar outros times no topo.

O gol de honra do River em Núñez foi marcado pelo zagueiro Mina. Gallardo não colocou em campo a sua equipe titular, preferindo poupar seus principais nomes para a insana ''guerra fria'' contra o Boca pelo título do Campeonato Argentino, no qual está quatro pontos atrás do rival, mas ainda com um jogo a menos.

Arrancando sua campanha na Libertadores como único time 100%, o River hoje amargou ainda o fim de sua invencibilidade de 15 partidas.

O time de Gallardo foi a campo com: Velazco; Arzura, Lollo, Mina e Mayada; Domingo, Nacho Fernández, Correa, Auzqui e Andrade; Alario foi o único atacante de ofício, e ainda perdeu um pênalti no comecinho quando estava 0x0.

Tão elogiado nos últimos jogos, Gallardo hoje merece ser questionado por levar ao Monumental uma equipe tão abaixo do normal. Não era jogo para ser tratado de forma blasé, principalmente em data comemorativa. Valia, afinal, a oportunidade de atuar sempre em casa até a decisão.

Tal privilégio agora não existe mais, o que é um detalhe que pode fazer diferença nas fases finais. Tudo bem, o título de 2015 veio com a pior campanha entre as 16 do mata-mata, mas passar esta mensagem de fragilidade não estava nos planos.

Principalmente no dia do aniversário e diante de quase 60.000 fanáticos que certamente esperavam outra coisa.


Advogado pede prisão de Centurión por violência contra ex-companheira
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Tales Torraga

Buenos Aires está desabando na cabeça de Ricardo Centurión, 24 anos, meia-atacante do São Paulo emprestado ao Boca Juniors.

Em cidade onde a violência de gênero é tema dos mais delicados, ninguém está indiferente à denúncia apresentada por sua ex-namorada, Melisa Tozzi, que afirmou ser ''enforcada e ter três dentes quebrados'' pelo camisa 10.

Nesta quarta, o advogado de Melisa afirmou que será pedida a prisão de Centurión por ameaças e violência doméstica. ''Ela tem muitas provas e evidências da agressão exercida. Há vídeos, áudios, mensagens de textos e ameaças. Partindo da base de que ele golpeou a mulher, vamos solicitar nas primeiras horas de sexta uma ordem de prisão'', contou ao jornal ''Clarín'' o advogado Diego Storto, que representa Melisa. Agora, um juiz vai decidir se acata o pedido ou não.

''O que mais me preocupa é que Centurión faça com outra mulher aquilo que fez com Melisa'', concluiu o advogado.

A Argentina tem histórico de jogadores detidos recentemente – como o próprio ex-goleiro do Boca, Pablo Migliore, por 40 dias em 2013 por encobrir um homicídio. Migliore jogava no San Lorenzo e foi levado à prisão imediatamente depois de um jogo contra o Newell's.

Mariano Cúneo Libarona, advogado de Centurión, minimizou a denúncia: ''Temos que dividir a vida profissional de sua vida profissional, e ele tampouco matou alguém. É a vida familiar. Foi um fato menor, não houve golpes ou agressões. Falamos de lesões leves''.

Horas antes, ainda nesta quarta, Centurión e sua mãe receberam uma notificação impedindo que ambos se aproximem da ex-namorada do jogador.

O assunto sacode a Argentina em plena véspera de feriado nacional, o 25 de maio da revolução de 1810.

Vieram à tona áudios atribuídos à mãe de Centurión reforçando as ameaças e atacando Melisa. Há também uma troca de mensagens de Melisa com o jogador no qual ele confirma as agressões. Técnico do Boca, Guillermo Barros Schelotto afirmou que teve uma reunião a sós com o atleta que se recupera de lesão, mas não revelou o conteúdo da conversa.

Mediante o novo escândalo, a possibilidade de prisão, a longa lista de problemas extra-campo do jogador e a pouca eficiência da terapia iniciada por ele, o Boca, segundo o que apurou o blog, não vê a hora de se desfazer da dor de cabeça que tem sido Centurión – ''um jogador desequilibrante e uma pessoa desequilibrada'', segundo comentou um dirigente do clube.

Os últimos dias têm sido tão chocantes para Ricky que ele vem sendo apontado pela mídia argentina como pivô da separação de Diego Maradona (!) e usuário de drogas (!!), daí sua lesão no começo da derrota para o River na Bombonera.

Até como uma resposta à sociedade para tema tão delicado como a violência de gênero, hoje todos acreditam nos corredores do clube que não, Centurión não vai ser contratado em definitivo junto ao São Paulo. A transação vai ser decidida pessoalmente pelo presidente Daniel Angelici, que ainda não falou à imprensa.

* Às 9h18 de quinta: O ''caso Centurión'' está na capa dos jornais de hoje – um deles é o ''Olé'', que crava a mesma informação de ontem do blog: o Boca não vê a hora de se livrar do jogador. Resta saber agora o que o São Paulo fará com ele.

Ontem à noite, no canal de TV América, foi noticiado que Centurión já não vai mais jogar pelo Boca, e o clube sequer vai usá-lo nesta definição do Campeonato Argentino. Faz sentido. O Boca vai preservar sua imagem institucional – e não arriscar seu negócio multimilionário de venda de camisas em todo o mundo abrigando um jogador acusado de tamanhas transgressões.

O movimento ''Ni Una Menos'', que conscientiza a população mundial sobre a violência contra a mulher na Argentina, estipula hoje mais de 200 feminicídios argentinos por ano, uma média de uma morte a cada 36 horas.

Trata-se de uma loucura terrível que traumatiza famílias inteiras – e por gerações.

O tema é atual e fortíssimo em Buenos Aires no esporte e principalmente na cultura – só ver este clipe, de uma das maiores bandas roqueiras do momento, a La Beriso.

#niunamenos, locos.


Palmeiras defende tabu de 56 anos contra times argentinos
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Tales Torraga

O Palmeiras enfrenta o Atlético Tucumán às 21h45 no Allianz Parque na condição de pleno favorito – seja pela liderança vigente ou pela sua história quando joga em casa contra equipes argentinas pela Libertadores da América.

O atual campeão brasileiro recebeu um time argento pela primeira vez na competição em 1961. São dez jogos no total – 7 vitórias, 3 empates e 0 derrota.

Keno contra o Tucumán – Palmeiras/Divulgação

E olhe que o Palmeiras desafiou verdadeiros gigantes vizinhos como River, Boca, Independiente e Estudiantes.

Essas encontros renderam duas histórias engraçadas ao blog.

Quando Cesar Luis Menotti falou conosco no ano passado, perguntei a ele sobre o 6×1 do Palmeiras sobre o Boca em 1994. Era El Flaco, o técnico bostero. Sua resposta foi cortante como uma gambeta: ''Pibe, vamos falar de outra coisa, não gosto de lembrar desse jogo, você não imagina a surra que me deram naquele dia''.

Rolou um papo parecido com Carlos Bianchi no lançamento do seu livro, em material que ainda será publicado. Pergunto ao Virrey sobre a pedrada na careca que ele levou de um torcedor na semifinal, no chiquito Parque Antarctica em 2001. Ele fez uma cara de dúvida, riu e lançou: ''Aquele jogo estava bom, hein?''.

Claro – deu Boca nos pênaltis, afinal.

O Palmeiras x Boca de 2000, que terminou 0x0 e rendeu a primeira Libertadores ao clube em seu ciclo, também teve espaço na conversa. Pedi para Carlos relembrar como foi a escolha dos cobradores para aquela decisão. Sem rodeios, e com a inconfundível objetividade argentina, disparou: ''Só perguntei quem estava disposto a cobrar forte e seco e enfiar uma bomba naquele goleiro que era um fenômeno''.

O histórico completo do Palmeiras contra argentinos em casa na Libertadores:

10 jogos, 7 vitórias e 3 empates
1961 – 1×0 Independiente (1ª fase)
1968 – 3×1 Estudiantes (final)
1994 – 6×1 Boca Juniors (1ª fase)
1994 – 4×1 Vélez Sarsfield (1ª fase)
1999 – 3×0 River Plate (semifinal)
2000 – 0x0 Boca Juniors (decisão)
2001 – 2×2 Boca Juniors (semifinal)
2006 – 0x0 Rosario Central (1ª fase)
2013 – 2×0 Tigre (1ª fase)
2016 – 2×0 Rosario Central (1ª fase)


Nem Maradona nem Messi. O maior atleta da história da Argentina é Ginóbili
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Tales Torraga

O tema é apaixonante e sempre arrepia a pele.

Principalmente a nossa pele argentina, de tantos heróis em quadras, circuitos e gramados por todo o mundo.

Difícil para um ''boleiro de lei'' tirar de Maradona as lembranças da máxima felicidade pessoal (o Mundial 86) ou, entre os mais jovens, tudo o que Messi significa hoje. É difícil também apagar o que representou Guillermo Villas como revolucionário no tênis mundial ante os grandes rivais dos anos 70, Borg e Connors.

Porém – e esta é apenas uma (simples) opinião pessoal -, o maior esportista argentino da história se chama Emanuel Ginóbili.

Stephen Curry abraça Manu Ginóbili – NBA/Reprodução

É complicado demais comparar atividades puramente ''humanas'' com outras mecânicas; esportes coletivos e individuais.

Mas tentaremos.

E em um primeiro corte está bem clara a ''universalidade'' do próprio esporte.

Neste sentido, o futebol e o basquete têm exigência superior: suas competições abarcam todos os países, sem distinção de poder econômico ou social.

A Argentina não tem apenas ''história, lendas e pergaminhos'' no futebol.

Três dos nossos jogadores – Di Stéfano nos anos 50, Maradona nos 80/90 e Messi na última década – foram considerados os ''autênticos número 1 do mundo'' sem discussões. Um mérito imenso, equivalente ao prazer que ofereceram às multidões.

Isso não se mede só em estatísticas, mas também em emoções.

Mas o basquete, porém, também tem dimensão universal (o tênis o alcançou nas últimas décadas), e, neste caso, com dificuldades extras. Se trata de um esporte em que a liga profissional dos Estados Unidos – a NBA – se instalou em outra galáxia.

Por um longo tempo, inacessível para as estrelas do resto dos outros países. Basta lembrar como os grandes jogadores dos anos 70 e 80, procedentes de potências como a ex-União Soviética ou a ex-Iugoslávia, tinham dificuldades para se adaptar ou conseguir uma vaga de titular em qualquer equipe da NBA, grande ou pequena.

Manu Ginóbili, oriundo da ''capital'' do basquete argentino como é Bahía Blanca, não foi um prodígio juvenil, nem sequer surgia como o mais promissor dos jogadores da sua geração, segundo contam os especialistas. Mesmo assim, cumpriu uma trajetória triunfal pelas ligas europeias. E quem o recrutou na NBA?

Logo uma das equipes mais consistentes, o San Antonio Spurs, onde ele faz história há 15 anos – Ginóbili está a ponto de completar 40, e salvo uma enorme surpresa, a partida de ontem contra os Warriors foi sua última na carreira.

Vamos definir assim: em uma competição onde se joga todo dia, e onde os reis se chamavam Michael Jordan ou Magic Johnson para os mais antigos, LeBron James ou Kobe Bryant para os mais novos, Manu Ginóbili, um argentino, um estrangeiro no meio desses gigantes, se encaixou de igual para igual.

Esse grau de dificuldade – competir contra os melhores da melhor liga que existe (por poder físico, esportivo, estrutura e organização), supõe a escalada do Everest para um simples mortal. Ginóbili conseguiu. E se manteve. Até os 40 anos. Incrível.

Este, porém, é só um aspecto.

O outro é que Ginóbili simboliza a Geração Dourada, provavelmente a maior expressão coletiva da história do esporte argentino (junto com as seleções de futebol campeãs do mundo), capaz de derrubar duas vezes (em uma delas, em sua própria casa) as seleções da NBA, capaz de dar à Argentina uma das mais celebradas medalhas de ouro na história, a dos Jogos de Atenas.

A admiração por Ginóbili não diminui um centímetro que seja no que podemos sentir pelo restante dos nossos grandes. A entrega heroica dos mais recentes, como Lange, Pareto ou Del Potro no Rio ou em Zagreb, por exemplo.

Porém, colocados no desafio e na eleição ''cruel'' ante a fria sentença dos números, não resta outra: Ginóbili foi o maior nos máximos desafios de um esporte tão duro.

(Simplesmente a NBA e os Jogos Olímpicos!)

E, entre seus contemporâneos, por essa mesma universalidade, por esse grau de dificuldade e por sua vigência, um certo Messi ainda tem muito para nos assombrar e lutar por esse lugar nesta eleição tão arbitrária.

* Com Luis Vinker (de Buenos Aires, do ''Clarín'' e de sempre buenos amargos!)


Por que a Argentina só fala da “chuva de bonecas” da torcida do Rosario?
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Tales Torraga

Rosario Central e Racing jogaram entre si no Gigante de Arroyito, em Rosário, na noite deste domingo, pela 26ª rodada do Campeonato Argentino. Aos 24 minutos do primeiro tempo, a torcida do Central arremessou dezenas de bonecas no gramado, obrigando o árbitro Ariel Penel a parar a partida para recolher os brinquedos.

Estava 1×0 Central – e o jogo terminou 4×1 para os próprios canallas.

As bonecas atiradas estavam com o ''uniforme'' do Newell's, que perdeu há oito dias o clássico de Rosário para o Central por 3×1 em pleno Estádio Marcelo Bielsa.

Qualquer conversa sobre futebol nesta segunda em Buenos Aires – para não dizer de Rosário – gira em torno da ''chuva de bonecas'' que pode ser vista aqui.

A questão passou a ser: o Central merece ser punido por sua torcida atirar objetos em campo, parar a partida e não respeitar as normas de comportamento em vigor?

Muitos defendem que o clube seja obrigado a jogar com portões fechados e pagar uma gorda multa para que tal protagonismo não volte a acontecer. Jogadores jogam, torcedores torcem. É este o raciocínio defendido por muitos comentaristas nas intermináveis mesas-redondas que são levadas ao ar na noite de domingo e agora no horário de almoço das segundas-feiras – igualzinho ao Brasil.

Há até os que pretendem que o Rosario desça de categoria para que haja uma real conscientização da torcida que está habituada a fazer coisas do tipo na Argentina. O primeiro Boca x River na Bombonera depois da passagem do River pela Série B também foi paralisado pela torcida do Boca e por suas alusões, aqui.

Outro ponto apontado pelo comentaristas é que a mensagem de arremessar bebês é muito grave, mediante o altíssimo índice argentino de violência doméstica.

Os que contra-argumentam afirmam que a Argentina não é a Suíça, e que as torcidas têm liberdade para se manifestar, desde que sem violência. A entrada em campo do Central ontem já havia sido histórica – e muito perigosa, convenhamos, como pode ser visto neste vídeo. Mais do que barrar uma ou outra manifestação, o que importa de verdade para a nova AFA neste momento é acabar com a corrupção.

Assistentes limpando o campo – Clarín/Reprodução

A conversa virou também um debate sobre um eventual ciúme dos portenhos (da capital Buenos Aires) do jeito apaixonado de ser dos torcedores de Rosário.

Mero drama ou linguagem bestial de fato?

O Central merece uma advertência ou uma punição severa?

O blog vai de A nas duas, embora a louca rivalidade de Rosário precise mesmo de um filtro, pois ela passa dos limites antes, durante e depois de um clássico.

''Sabia que em Rosário se vivia assim, mas é pior do que me contaram. Aqui, estamos como na África do Sul com os brancos e com os negros. Não se pode cruzar uma quadra ou um bairro que logo sai briga'',  declarou semana passada o técnico do Central, o uruguaio Paolo Montero – e com toda a razão.

Senhoras do Central com caixão do Newell's – péssimo exemplo. Diario Uno/Reprodução


Sampaoli chama trio do River para enfrentar o Brasil
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Tales Torraga

A AFA divulgou na sexta (19) a lista dos convocados que atuam no exterior para os amistosos contra Brasil e Singapura, nos próximos dias 9 e 13. O clássico sul-americano será na Austrália, na cidade de Melbourne, às 7h05 (de Brasília). O segundo será no estádio Nacional de Cingapura, às 9h (de Brasília).

A relação vai ganhar sete nomes do futebol argentino – e o blog teve acesso a quais serão os jogadores chamados por Jorge Sampaoli. El Pelado Sampa já se despediu do Sevilla e logo será anunciado como novo treinador da seleção.

Do River Plate, hoje o melhor time do país, serão convocados o zagueiro Jonathan Maidana (31), o volante Nacho Fernández (27) e o atacante Lucas Alario (24).

Maidana, Nacho e Alario – River Plate/Divulgação

Maidana se caracteriza pela raça, experiência e por aguentar o jogo duro de qualquer atacante. Demonstrou certa lentidão nas últimas semanas, mas mesmo assim é capaz de atuações exemplares como a do domingo passado contra o Boca. Nacho é um volante moderno, de excelente visão de jogo e de passe refinado. E Alario é, acreditem se quiser, comparado por muitos a Francescoli e Van Basten.

Definidor e muy inteligente; tem 12 gols em 21 jogos pelo Argentino.

Outros convocados são o lateral-direito José Luis Gómez, do Lanús, de 23 anos, apelidado de ''El Cafu'' pelo fôlego e pelas chegadas ao ataque, e Huevo Acuña, volante do Racing, 25 anos – já citado por Bauza e de ótimo papel ante a Bolívia.

A relação de Sampaoli fica completa com Javier Pinola, 34 (!), zagueiro do Rosario Central, e Nicolás Tagliafico, 24, lateral-esquerdo do Independiente.

Para não atrapalhar a definição do Campeonato Argentino, a AFA vai pausar o torneio entre os dias 4 e 18 – assim, nenhum time será prejudicado.

Corre o rumor em Buenos Aires que Sampaoli pode alterar sua lista do exterior – e trocar, daqueles nomes, outros três para abrir espaço a atletas do futebol local.

A AFA não confirma; tampouco nega.


Opinião: Sampaoli acerta ao convocar Icardi
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Tales Torraga

A primeira convocação da Argentina sob o comando de Jorge Sampaoli veio com a confirmação daquilo que muitos pediam em Buenos Aires e que hoje finalmente ocorreu: Mauro Icardi volta à seleção depois de uma única participação em 2013.

Lugano x Icardi – La Capital/Reprodução

Convém repetir: a Argentina padece da falta de gols. O ataque da seleção nas Eliminatórias é pior que o da Venezuela (15 gols em 14 jogos; os venezuelanos têm 17), o que beira o absurdo contando com Messi, Higuaín, Dybala, Di María e Agüero.

Há a necessidade urgente de mudanças.

Sai Pratto, como antecipamos anteontem, e entra o polêmico Mauro Icardi, o do triângulo amoroso com Maxi López e sua ex-mulher Wanda Nara.

(Ex de Maxi, atual de Icardi.)

Sampaoli já marca uma posição desde seu momento zero na seleção.

Se Icardi não foi convocado nos ciclos de Tata Martino e Patón Bauza por eventuais problemas com o restante do grupo (leia-se antigos amigos de Máxi López, casos de Messi e Mascherano), tais desavenças terão de ser contornadas em prol de um objetivo comum, que é encontrar alternativas ofensivas para uma Argentina que, vale lembrar, ainda precisa selar sua vaga na Copa do Mundo da Rússia.

E abrir mão de um goleador como Icardi é uma loucura. Maurito é um exemplo de bom timing e de excelente jogo aéreo. E com a ressalva de que muitas situações de gols na Inter de Milão ele conquista por mérito próprio, porque a equipe não o ajuda – e imagine agora o estrago que ele pode fazer rodeado por monstros na seleção.

(Sua média de gols na temporada é de 0,66 – 26 em 41 jogos)

Que cada um fique com sua leitura do que Icardi é fora de campo. O que ninguém pode negar é que na área rival ele é como um atacante argentino de antigamente. Muito esperto – um ''pescador'', como os portenhos dizem neste pedaço de mundo. Se o zagueiro dormir com ele um instante que seja, chau.

Finalmente, Pelado Sampa. Sem panelas, sem estrelismo. Muy, pero muy bien.

Às 17h48: Sobre Sampaoli e sua lista anônima, só mesmo um futebol desleixado como o argentino é capaz de coisas do tipo. O técnico ainda não foi apresentado oficialmente, neste fim de semana se despede do clube, mas já arma suas listas sem poder assiná-las –yo, argentino atado con alambre. Chegado numa gambiarra.

El Pelado Sampa é famoso pelo seu critério no trato com os dirigentes e por exigir sempre máximo profissionalismo. Está aí a chave do seu futuro trabalho: saber como ele vai lidar com uma AFA que até aqui beirou sempre o amadorismo.


Mas o futebol argentino não está fraco, falido e em crise?
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Tales Torraga

O blog publicou em 8 de março: ''Que o Brasil não olhe esta Argentina de cima para baixo e não suba no salto da crise. É grande o risco de cair dele e chorar depois, como cansamos de ver nas noites de Morumbi e de Verão, ops, Verón.''

E foi assim. Com enorme soberba do Flamengo, e toneladas de suor do San Lorenzo, que decretou-se a enésima façanha argentina sobre um brasileiro na Libertadores e na Sul-Americana – e está aí o nanico Defensa y Justicia eliminando o São Paulo em pleno Morumbi na semana passada para poupar nuestra memoria.

San Lorenzo comemora, Flamengo chora – Olé/Reprodução

O Brasil não vai aprender nunca?

Vai continuar dizendo que o Campeonato Argentino não é interessante de ser transmitido em uma grade de TV que mostra (ou mostrou) os campeonatos da China, Rússia, Colômbia e Bélgica? Em que cabeça isso cabe?

Vai continuar aceitando que se diga, depois das surpresas, que foram eliminados por clubes pobres, de folha salarial que seria coberta por dois ou três salários de craques brasileiros, isso quando argentinos recebem salários, e cujos jogadores não pensam meia vez antes de desembarcar no Brasil por mera questão de grana?

Até quando o Brasil vai aguentar ser eliminado para times argentinos que depois de ganhar resumem a vitória a um simples ''jamais cruzamos os braços''?

Até quando argentinos e uruguaios vão continuar empinando o nariz e dizendo que têm mais caráter para jogar decisões, que brasileiros são ''pecho fríos'', amarelões?
Quem pode negar que só o desleixo explica ser eliminado nos acréscimos – e de virada! – por um San Lorenzo que levou 4×0 na partida de ida no Maracanã?

Os seis representantes argentinos estão vivos na Libertadores, mesmo começando a Copa em inatividade de quase dois meses e meio por não jogar o campeonato nacional (!) e em greve por não receber salários (!!).

O Estudiantes precisa ganhar seus dois jogos para avançar, mas o San Lorenzo também estava assim e deu no que deu – gracias siempre por tu regalo, Flamengo.

O Lanús, que deve recuperar os pontos perdidos para a Chape, mesmo com esta derrota, hoje estaria classificado. O Godoy Cruz, que levou os reservas para Belo Horizonte e por isso não ofereceu resistência ao Atlético, também já se garantiu. Até o Tucumán, noviço em Copas, entra na última rodada com chances razoáveis.

Nem falamos do River, o poderoso River Plate, hoje o melhor time da Argentina disparado, desde já o eventual ganhador desta Libertadores.

Libertadores que, aconteça o que acontecer, já está na história como um antigo vinil riscado com a agulha saltando e repetindo: Quando o Brasil vai aprender? Até quando a Argentina vai continuar ganhando assim, só com a cara e com a coragem?

O bom e velho Ortigoza chora com a épica do Ciclón – Reprodução TV

Para fechar: Diego Aguirre é o atual técnico do San Lorenzo. Esteve há pouco no Inter e no Atlético-MG, e viu de perto o mercado brasileiro pagar até R$ 700 mil por mês para os treinadores. Na Argentina, o teto é de 1 milhão – mas de pesos.

A cotação oficial está em 4,66. R$ 1 = ARS 4,66. O uruguaio recebia R$ 300 mil mensais do Atlético – hoje no Ciclón, metade disso.