Patadas y gambetas

Argentina vai ensinar tênis nas escolas públicas
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Tales Torraga

Campeã da Copa Davis no último domingo, a Argentina vai fazer do tênis uma atividade esportiva de grade curricular nas escolas públicas a partir de 2017.

O blog apurou que será este o tema da reunião já agendada para as próximas semanas entre Diego Gutiérrez, vice-presidente da Associação Argentina de Tênis, e Esteban Bullrich, o muy receptivo ministro da Educação e Esportes do país.


O encontro foi determinado na última quarta-feira por Mauricio Macri, presidente da Argentina e grande entusiasta do tênis. Macri costuma postar fotos suas praticando o esporte e afirmou, na Casa Rosada, que se debulhou em lágrimas com as vitórias de Juan Martín del Potro e Federico Delbonis pela Davis no último domingo.

O plano argentino já tem uma referência: o que fez a Grã-Bretanha depois de ganhar a Davis do ano passado, quando, segundo o país, 16 mil crianças começaram a jogar tênis pela ocasião. Foi a primeira Davis dos britânicos em 79 anos.

A síntese da ideia argentina é a seguinte: ''No tênis, houve um antes e depois de Guillermo Vilas. Agora, precisa haver um antes e depois da Copa Davis'', é o que se escuta dos dirigentes depois da épica conquista do fim de semana em Zagreb.

Presidente da Argentina, Macri participa de clínica de tênis com Nadal (ao fundo)

A meta argentina é consolidar o tênis como segundo esporte, atrás só do futebol.

Não há números oficiais, mas matéria publicada nesta semana pelo ''Clarín'', principal jornal da Argentina, estima o número de praticantes hoje no país em 2 milhões. É esta a base dos cartolas para desenvolver crianças, mulheres e tenistas amadores para primeiro atingir 2,5 milhões e, depois, chegar aos 3 milhões.

O que anima a Associação de Tênis da Argentina é a óbvia comoção em torno do título da Davis. As audiências somadas da TV Pública e do canal especializado TyC Sports indicam que quase 1,9 milhão de pessoas, em 540.000 lares, sofreram, vibraram e explodiram com os jogos da Davis por todo o território nacional no domingo.

Tal popularidade já oferece um evidente lucro.

A Associação Argentina de Tênis começou a trabalhar na renovação e na busca de patrocinadores que engordem seus cofres. O mote agora é ''vender o tênis, e não a Davis, cuja competição será um mero veículo para promover o esporte''.

A Argentina perdeu a chance de massificar o tênis depois das épocas de Vilas, de Gabriela Sabatini e da ''Legião'', melhor geração de tenistas da história do país – com Coria, Gaudio, Nalbandian, Cañas, Chela, Zabaleta, Acasuso e tantos outros.

''Vai ser imperdoável se o tênis argentino deixar escapar o quarto trem de sua história'', argumentou, com toda a razão, o ''Clarín'' também nesta semana.


“Atlético Nacional age com demagogia”, ataca cartola argentino
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Tales Torraga

Presidente do Huracán e mundialmente conhecido como um dos cartolas mais polêmicos da Argentina, Alejandro Nadur atacou forte o Atlético Nacional.

Rompendo o sentimento de luto e contrariando a opinião pública, ele disse que o clube ''faz demagogia'' ao oferecer o título da Sul-Americana à Chapecoense.

''Eu tenho minhas reservas sobre a direção do Atlético Nacional, não é o momento de fazer demagogia. Isso [dar o título] vai decidir a Conmebol, sem dúvidas, mas não é o momento de fazer demagogia'', afirmou Nadur ao programa Crack Deportivo, da Rádio AM 1130 de Buenos Aires, sendo logo criticado no país pela falta de sensibilidade ao abordar o tema desta maneira e em momento de tamanha dor.

''Estou convencido de que sim, houve demagogia. Por conhecê-los, estou seguro que sim. Não quero falar do tema agora, quero falar da dificuldade dos familiares.''

Nadur teve muitas discussões com o Atlético Nacional na última Libertadores. O Huracán escapou da tragédia e sobreviveu por milagre a um acidente de ônibus na Venezuela. Ali, segundo o presidente, os colombianos não aceitaram mudar a data da partida que fizeram entre si em 23 de fevereiro, em Buenos Aires.

O Atlético Nacional venceu o Huracán na ocasião por 2×0.


Ante la realidad de la muerte
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Tales Torraga

Sólo hay una respuesta digna frente a la finitud humana
y ante la realidad de la muerte:
cuidarnos, acompañarnos, ayudarnos.

FOTO: AFP


Lesões, glórias e idolatria. Por que Guga e Del Potro são tão parecidos
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Tales Torraga

E o ''Maradona es más grande que Pelé'' chegou ao tênis.

É fácil, extremamente fácil, encontrar em Buenos Aires torcedores que, desde a conquista da Copa Davis no último domingo, já colocam Juan Martín del Potro como o melhor tenista sul-americano da história, acima até de Gustavo Kuerten.

A diferença de idade de ambos é de 12 anos. Guga nasceu em 1976 e está com 40; Del Potro, 28, nasceu em 1988.  Enfrentaram-se profissionalmente uma única vez.

E a ''Torre de Tandil'' ganhou do ''Surfista do Saibro '' por 7/6 e 6/2 na primeira rodada do Masters Series de Indian Wells, na quadra dura, em 2007, ano em que Guga enfim desistiu de tentar superar as persistentes lesões no quadril.

Guga e Del Potro em exibição realizada no Uruguai em 2012

Colocar Del Potro acima de Guga, como parte da Argentina faz desde domingo, tem mesmo ares da rixa entre Pelé e Maradona. Não apenas por Guga e Delpo não terem sido contemporâneos, mas também pelo tenista brasileiro, assim como Pelé no futebol, exibir números superiores aos do argentino.

Kuerten ganhou Roland Garros três vezes, em 1997, 2000 e 2001. Foi número um do mundo por quase um ano todo – exatas 43 semanas entre dezembro de 2000 e novembro de 2001. Del Potro conquistou um único Grand Slam, o US Open de 2009, e tem como melhor ranking a quarta posição obtida em janeiro de 2010.

Os argumentos argentinos para relativizar esses feitos são dois.

O primeiro é o fato de Del Potro ter, na visão de muitos, uma concorrência mais pesada que a enfrentada por Guga – embora o brasileiro seja de uma geração na qual precisou encarar Sampras, Agassi, Kafelnikov, Safin e Hewitt, entre outros, Del Potro se colocou lado a lado a lendas da história como Roger Federer e Rafael Nadal, ambos derrotados na campanha que o levou ao título do US Open com apenas 19 anos. Nadal foi batido na semifinal; Federer, na decisão por cinco sets.

Há também Novak Djokovic e Andy Murray, ambos vencidos por Delpo em 2016 em jogos épicos na Olimpíada (Djokovic) e na Davis (Murray, em plena Escócia).

Muitos argentinos veem os títulos de Guga em Roland Garros sobre Sergi Bruguera (1997), Magnus Norman (2000) e Alex Corretja (2001) como conquistas nas quais os adversários não faziam parte do primeiro time do tênis – com a óbvia ressalva brasileira de Guga ter vencido Agassi e Sampras na Masters Cup de 2000, evento que Del Potro chegou à final e perdeu para o russo Nikolay Davydenko em 2009.

Há a diferença clara também de estilo de jogo e de preferência de pisos.

Enquanto Guga foi o típico tenista sul-americano que se dava melhor no saibro que nas demais quadras, Del Potro rompeu paradigmas (segundo argumento argentino) e obteve seus êxitos em quadras duras. Foi assim na final da Davis, no seu título de US Open e na medalha de prata conquistada na Olimpíada do Rio.

(Olimpíada que nunca esteve nem perto de sorrir a Kuerten, convenhamos.)

Delpo é também um ótimo jogador de grama. Nela, conquistou o bronze na Olimpíada de 2012 e fez semifinal em Wimbledon em 2013 – o melhor desempenho de Guga na superfície foi chegar às quartas-de-final em 1999.

Enquanto o grande feito de Guga foi popularizar o tênis no Brasil – um papel mais para Guillermo Vilas que para Del Potro -, a proeza de Delpo foi nascer e crescer dentro de um ambiente de tradição como é o tênis na Argentina e levá-lo ainda mais para o alto com a inédita conquista da Copa Davis, algo que o país teimava em conseguir – tanto com ele em quadra como com os antecessores.

O melhor desempenho de Guga na Davis foi uma semifinal, em 2000, quando perdeu para a Austrália na grama de Brisbane.

Há em favor de Guga uma atuação nos bastidores da Davis que mudou toda uma geração de dirigentes quando ele boicotou a competição no começo da década passada; Del Potro fez algo parecido: desentendimentos com antigos cartolas causaram seu afastamento da competição que voltou a jogar este ano depois de quatro temporadas de ausência. Mas não houve necessariamente um boicote.

A mudança do comando ocorreu devido à morte de Arturo Grimaldi, o presidente com quem Del Potro tinha suas desavenças.


Outros dois pontos de contato – ou atrito, depende de quem os olhar – entre Guga e Del Potro dizem respeito às lesões e ao carisma de cada um.

Primeiro, as contusões. Guga sofreu com o quadril por cinco anos, de 2002 a 2007, até fazer seu tour de despedida e se afastar do tênis profissional em 2008. Ao todo, exibe uma carreira de 358 vitórias, 195 derrotas, 20 títulos e US$ 14,8 milhões.

O quadril de Guga foi o punho de Del Potro, que não vinha o deixando competir com regularidade desde 2010. Guga e Delpo passaram pela mesma quantidade de cirurgias para lidar com suas lesões – três.

LEIA MAIS: O poder da simplicidade, entrevista exclusiva com Guga

Mesmo com as idas e vindas, Delpo já exibe carreira com uma extensão semelhante à do brasileiro: 346 vitórias, 140 derrotas, 19 títulos e US$ 16,2 milhões em prêmios.

Por fim, o carisma.

Guga até hoje é reverenciado como um dos mais simpáticos tenistas em todo o mundo, e gerou uma imensa comoção no Brasil quando competia.

Na Argentina também. Guga contou muitas vezes com a torcida de Buenos Aires a seu favor quando enfrentava tenistas da casa como Coría, Gaudio e Zabaleta.

O caso de Del Potro é diferente. ''Ele não tem o carisma de Guga e nem é tão querido. Reverteu sua imagem e voltou a nascer. Mas está longe de ser um ídolo'', relativiza o jornalista argentino Ariel Ruya, editor do jornal ''La Nación''.

LEIA MAIS: Como Del Potro superou o ciúme, o pânico e a depressão

O grande plus recente de Del Potro é sofrer, sofrer, sofrer, não se entregar e triunfar, algo que os argentinos aplaudem de pé e para sempre – havendo carisma ou não.

Se aos olhos portenhos o Brasil segue a terra da alegria e da descontração – olhe que coisa mais linda, mas cheia de graça… – a Argentina é a pátria do esforço e da entrega – ponga huevos que ganamos, es un sentimiento, no puedo parar.

Guga e Del Potro estão aí, cada um à sua maneira, provando isso uma vez mais.

* Com Fábio Aleixo, de São Paulo. Gracias por tanto, Mitazo!


Loucuras argentinas na Davis: de dedo quebrado a jornalista de joelhos
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Tales Torraga

A Copa Davis enfim é argentina. O feito obtido ontem (27) na Zagreb Arena já está entre os cinco maiores do esporte no país em todos os tempos.

E como não poderia deixar de ser, foi conquistado com a loucura típica que faz da Argentina este país tão peculiar na cultura e no comportamento humano.

(É claro que não passou batido o fato de a Argentina chegar ao inédito título da Copa Davis na mesma campanha em que o Brasil desceu mais uma vez para a Segunda Divisão, mas isso é tema para outra hora.)

A hora agora é de contar dez loucuras desta conquista especial que a Argentina aproveita nesta segunda-feira de buena onda e 27 graus em Buenos Aires:

JORNALISTA DE JOELHOS. Guillermo Salatino, 71 anos, cobre tênis desde sempre na Argentina. E ontem, assim que terminou a final, cruzou a quadra da Zagreb Arena de joelhos. Bancou o ritual sem reclamar: ''O tênis é minha vida''.

EXPLOSÃO MONUMENTAL. O aristocrático River Plate, que já recebeu edições de Copa Davis em suas instalações, explodiu quando houve a definição do confronto em Zagreb. No mesmo horário jogavam River x Huracán pelo Argentino – vitória do River por 1×0. O vídeo da comemoração no Monumental de Núñez está aqui.

(MUITOS) PALAVRÕES. A conquista foi narrada na TV com a habitual paixão argentina, e até o sóbrio Gonzalo Bonadeo deixou escapar palavrões ao fim do jogo na locução que fez à TV TyC Sports. O vídeo deste momento épico na Argentina está aqui. E o jornal ''Olé'', claro, não perdeu sua chance nesta segunda.

Provando que o gosto duvidoso não é destinado só a ingleses e brasileiros, o diário não deixou também de tirar sarro dos tenistas argentinos que estiveram perto de conquistar a Davis e não a obtiveram, caso do lendário Guillermo Vilas.

REVER PARA CRER. Enrique Morea, 92 anos, histórico dirigente da Associação Argentina de Tênis, passou a tarde e a noite de domingo vendo os teipes de Zagreb, contou hoje o jornal ''La Nación''. ''Já posso morrer feliz'', falou.

NA MADRUGADA. Os jogos foram transmitidos ao vivo pela TV Pública para toda a Argentina desde o primeiro serviço na sexta-feira. Ontem, das 22h às 24h, a emissora mostrou um especial sobre a conquista e sobre o tênis no país.

LOCO LINDO. Chamou atenção a escolha de Daniel Orsanic, capitão argentino, por Federico Delbonis para o ponto decisivo contra o gigante Ivo Karlovic. Orsanic não escalou Leonardo Mayer, que vinha de dez vitórias seguidas nas simples na Davis. Mais acertado impossível. Delbonis esmagou o ''fantasmão'' Karlovic.

QUEBRA TUDO, ARGENTINA… De tão desejado, o troféu da Davis simplesmente quebrou quando erguido por Delbonis em Zagreb. Bateu na boca e machucou.

…ATÉ O DEDO DE DEL POTRO. San Martín contou depois do jogo contra Cilic que seu mindinho esquerdo estava quebrado. Ocorreu quando pediu pausa e não viu que o croata já sacara – a 207 km/h! – no começo do quarto set.


PECHO FRÍO? Juan Martín era tratado por muitos na Argentina como tenista sem alma – ele virou contra Cilic um jogo de cinco sets pela primeira vez na vida. Jogou quase 11 horas de sexta a domingo e terminou exausto, deixando tudo.

BEIJO NA MUNHECA. Ao encontrar Maradona, Del Potro pediu antes de enfrentar Cilic para Diego beijar seu punho esquerdo, operado três vezes. O tenista retribuiu regalando ao Diez uma das raquetes que usou no histórico triunfo.

Com o título, Maradona, claro, explodiu na tribuna em Zagreb como só ele sabe.


Davis é a maior alegria argentina desde 1986
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Tales Torraga

E chegou o grande dia: 27 de novembro de 2016 já é um divisor de águas. Nunca, jamais, o tênis e o esporte vão voltar a ser o que eram na Argentina. Ya está.


Chegou o dia de esquecer das decepções contra a Alemanha, contra o Chile e contra o Brasil. De esquecer as outras finais da Davis. E comemorar, gozarla y festejarla o que fizeram San Juan Martín del Potro e Federico Delbonis para loucura del Dios Maradona, presente, como prometera, até a última pelotita.

Coitados daqueles que não acreditam que esta é a maior alegria argentina no esporte desde 1986, desde o Mundial de Maradona, maior ainda que o ouro olímpico no futebol e no basquete, maior que os títulos das Leonas e dos Pumas.

Exagero?

Pergunte aos 4.000 argentinos que desde sexta pulam e cantam em Zagreb.

Pergunte para eles, porque por algo eles estão aí.

São muito mais que os suíços que há dois anos cruzaram a fronteira dirigindo seus carros para ver Roger Federer enfim ganhar a Davis.

São torcedores muito mais ruidosos, entusiastas, apaixonados e entregues que aqueles suíços corretos. Não são suíços, claro, são argentinos e enfermos, vivem o tênis como ninguém, como em nenhum outro lugar do mundo.

Não existe país em que o tênis tenha o nível de paixão e exposição que há na Argentina, um único fim de semana em Buenos Aires desfaz qualquer dúvida.

O dia em que Rafael Nadal parar de jogar, os espanhóis vão manter o tênis como assunto de terceiro nível. O dia em que Federer e Wawrinka pendurarem as raquetes, os suíços vão voltar a ter olhos só para o esqui e para o hóquei.

A Argentina, o país do futebol, nunca foi assim.

Desde que Guillermo Vilas o fez esporte popular, o tênis sempre esteve aí. Por isso a Davis virou obsessão. Esperamos 25 anos entre a primeira, em 1981, e a seguinte, em 2006, mas das últimas 11 finais, a Argentina esteve em quatro.

E nas quatro voltou com as mãos vazias. Nenhum país quer ser lembrado como o melhor a jamais vencer. Ahora se acabó, Argentina.

Há homens que buscam ao longo de sua vida um destino que não sabem bem qual é. Del Potro e Delbonis, hoje, o tiveram plenamente identificado.

Foram, sem distâncias ou exagero, o Kempes de 1978, o Maradona de 1986, o Fangio dos anos 50, o De Vicenzo dos anos 60, o Monzón dos anos 70.

Foram Ginóbili e Scola.

O tênis argentino hoje deixou uma pegada para as próximas gerações.

E isso não é para qualquer um, isso não ocorre qualquer dia.

Com Sebastián Fest, de Zagreb. Son un Diez, Seba, gracias totales!


Opinião: Argentina chora filme repetido na Davis
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Tales Torraga

Em sua quinta final na Davis, a Argentina pela quinta vez vê o desesperador cenário de precisar ganhar os dois jogos de simples do domingo para finalmente – finalmente! – ganhar a Copa que tanto se recusa a tomar vinhos e comer carnes.

(Por isso é a 'Saladeira', se fosse 'Churrasqueira' a Argentina já teria conquistado.)


Desde que este troféu começou a ser disputado em 1900, nenhum país perdeu tantas finais sem ganhar nenhuma, e os portenhos estão loucos com isso.

O desalento nublou o lindo sábado de sol e 21 graus em Buenos Aires pela arriscadíssima aposta que será depender da vitória de Juan Martín del Porto sí o sí  contra Marin Cilic no primeiro jogo do domingo.

Delpo ficou dois anos sem competir normalmente, e muitos, quase todos na capital portenha, temem pela sua saúde depois de jogar sete sets em dois dias – e em altíssima tensão – como ocorreu nesta sexta e sábado em Zagreb.

Para piorar, o desgaste que Cilic poderia sofrer neste sábado, depois de atuar por cinco sets e 3h30min na sexta-feira, não ocorreu.

A vitória croata por 3×0 nas duplas foi incontestável – quase um trâmite, e nem dá para justificar os dois tie-breaks nos dois primeiros sets como sinal de paridade porque foi exatamente nesta altura do confronto que ficou clara a diferença de nível de Ivan Dodig para Leonardo Mayer. Una paliza. Uma surra.

Assim vai. Como em 1981, 2006, 2008 e 2011.

Ou ainda pior, dependendo de um físico frágil como o de Del Potro, que esteve meio pinchado – meio manco – nas duplas, bem menos desgastantes que as simples.

Ganhando Delpo, a Argentina ainda precisaria de um novo milagre pelas raquetes de Federico Delbonis (?) ou do próprio Mayer (??) no confronto decisivo muito provavelmente contra Ivo Karlovic, cujos 37 anos e 2,11 metros são mais adaptados ao ar rarefeito desta instância da competição.

A Argentina de novo contou com cerca de 4.000 torcedores na Zagreb Arena, que mais parecia o Parque Roca ou Tecnópolis. Em vão. Nem um set vencido.

Diego Maradona esteve mais comedido neste sábado – obviamente pela morte de Fidel Castro, que o ajudou nas noites mais escuras em 2000 e 2001, quando El Diez esteve internado em Cuba para largar a cocaína.

Final perdida contra o Chile no futebol, uma nova final perdida no tênis para a Croácia. O orgulho argentino está más bajo que el peso, que lástima, che.

A rezar, eh? A rezarla, Argentina.


Final da Copa Davis lidera audiência na TV argentina
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Tales Torraga

Transmitida pela TV Pública ao vivo para toda a Argentina, a final da Copa Davis contra a Croácia liderou a audiência da TV aberta do país nesta sexta (25).


O pico ocorreu no começo do quinto set entre Marin Cilic e Federico Delbonis, no primeiro ponto da série. A partida foi vencida por Cilic em 3h30min de jogo.

O rating alcançou 7,2 pontos, contra 6,0 da segunda colocada, a América TV, que exibia um programa de fofocas e variedades.

A final da Davis está 1×1 com a vitória de Juan Martín del Potro sobre Ivo Karlovic no segundo confronto do dia. Foram quase sete horas seguidas de tênis em uma sexta-feira na qual a torcida argentina deslizou entre o êxtase e a agonia como habitualmente ocorre nos grandes eventos esportivos no país.

Contribuiu para a massiva audiência da Davis a fraca concorrência no horário, de novelas e noticiários nos outros canais abertos (América, Trece, Nueve e Telefe).

A Copa Davis liderou também a TV fechada no TyC Sports, emissora especializada em esportes que cobre a decisão in loco em Zagreb com toda sua equipe.

O narrador é o especializadíssimo Gonzalo Bonadeo, a voz do tênis na Argentina, com Martín Jaite, capitão argentino na Davis em 2012 e 2013, nos comentários.

Tabela da audiência no ponto máximo do dia, às 14h07 (15h07 de Brasília)

Os jogos foram seguidos com o habitual fervor também nas redes sociais.

O #copadavis foi assunto do momento no Twitter durante toda a sexta-feira, muito também pela performance de Diego Maradona como torcedor.

Muitos argentinos destinaram pesadas críticas ao Diez, tratando-o de pé-frio (''mufa'' ou ''piedra'' na gíria local) e tachando seu comportamento de ''lamentável, favelado e exemplo aos barra bravas'', num incompreensível azedume para uma final na qual a Argentina confirmou as exigências e esteve sempre muito competitiva.

Os demais meios de comunicação argentinos também mantiveram farto espaço aberto ao tênis. As duas principais rádios de Buenos Aires, a Mitre e a La Red, transmitiram o jogo com flashs ao vivo e in loco, o mesmo ocorrendo com as versões da internet dos principais jornais do país.

A audiência da Davis na TV aberta nesta sexta foi comparável a jogos de média importância do futebol argentino – um River x Huracán, por exemplo. Um superclásico Boca x River no domingo à tarde dá 20 pontos, quase o triplo de hoje.

A final de Del Potro na Olimpíada teve média bem superior à desta sexta, com 12,6 e pico de 16,9. Contribuiu, claro, ter sido no domingo. Esta sexta foi dia comum de trabalho, embora já haja na Argentina a sensação de fin de semana largo.

Segunda-feira é feriado, e um bem propício a comemorar a inédita Copa Davis.

Afinal, neste 28 de novembro se comemora também o Dia da Soberania Argentina.


Maradona pula, canta e pendura bandeira na final da Davis na Croácia
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Tales Torraga

O croata Marin Cilic venceu Federico Delbonis em uma batalha de 3h30 e cinco sets no primeiro jogo da decisão da Copa Davis entre Croácia e Argentina, mas o grande assunto foi a torcida argentina outra vez.

Segundo o jornal ''Clarín'', 4.000 fanáticos argentinos marcaram presença na Arena Zagreb que fica a 12.000 quilômetros de Buenos Aires.

Entre eles esteve Diego Armando Maradona, que ocupou o setor B107 das tribunas como um torcedor comum ao lado da namorada, Rocío Oliva.

Maradona esteve feito…Maradona.


Cantando, pulando e estendendo uma bandeira na qual se lia ''Aqui estamos…Família Maradona''. Havia dois seguranças privados próximos ao maior jogador argentino da história – e que deu nova prova de amor ao esporte de seu país.


* Atualizado às 12h34: aumentaram de dois para cinco seguranças temendo confusões com os croatas, também exaltados. Diego mostrava a eles seu punho esquerdo – pelo gol de mão na Inglaterra em 1986.

** Atualizado às 13h57: no quarto set, Maradona passou a ser solicitado para autógrafos e fotos nos intervalos, o que respondeu com bom humor.

Bem diferente dos cantos e gestos furiosos destinados a Cilic dizendo que o croata ''estava todo cagado'' ao errar bolas bobas.

Maradona desembarcou na Croácia na noite de ontem, e quase causou uma briga com os jornalistas que acompanharam sua chegada.


Nesta sexta, em entrevista à TV argentina, disse que ''bancava esses jogadores até a morte e que ficaria em Zagreb até a última pelotita''. Durante o jogo, fez muitos gestos de incentivo a Delbonis e reprovação aos árbitros.

No hino argentino, cantado com paixão pelos torcedores no ginásio, os jogadores quase choraram, vídeo aqui. Os argentinos preencheram cerca de 30% da arena.

É esperada a presença de Maradona também no vestiário para motivar os tenistas do país ao longo do confronto.

A TV Pública da Argentina transmite a Davis para todo o território nacional, e as redes sociais estão lotadas de fotos de pessoas ''matando'' o trabalho para torcer com as partidas desta linda sexta de sol e 27 graus em Buenos Aires.


Da guerra à final: a incrível história do capitão argentino na Copa Davis
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Tales Torraga

Chegou o grande dia, aquele que é chamado em Buenos Aires de ''Día D'' – de Davis, Del Potro e Delbonis. Croácia e Argentina começam hoje (25) a decidir a Copa Davis com a realização de dois jogos de simples.

Marin Cilic x Federico Delbonis primeiro, às 11h (de Brasília); depois, Ivo Karlovic x Juan Martín del Potro na quadra rápida montada na Arena Zagreb.

Ao redor dela estará um dos grandes – talvez o maior dos – personagens desta histórica decisão: Daniel Orsanic, de 48 anos, capitão da Argentina na Davis e filho de um refugiado croata que deixou o país depois da Segunda Guerra Mundial.

É a primeira vez que Orsanic, de sangue croata, pisa no país. E justamente para buscar a grande glória esportiva que a Argentina espera nos últimos anos.

Seu pai, Branko, deixou a Croácia em 1945: ''Quando terminou a Segunda Guerra Mundial, vieram os russos e tivemos que sair porque ele nos liquidavam. Eu tinha um irmão maior que não pôde vir conosco porque não havia lugar no navio, eram duas famílias inteiras. Ele ficou na Croácia e foi morto'', contou Branko, saudável, lúcido e alegre aos 88 anos, à revista ''El Gráfico''.

''Saí da Croácia aos 16″, segue o pai de Daniel, que originalmente se chamava Orlovich, mas adotou o Orsanic como tentativa de segurança.

''Ficamos três meses em um campo de refugiados na Áustria e outros três anos na Itália, em Udine, até que recebemos um convite para vir para a Argentina. Foram 18 dias de viagem e não esqueço mais: vomitei a viagem inteira. Meu pai era diplomata na Croácia e passou a trabalhar de pedreiro na Argentina. Você precisa ter um pouco de tudo nesta vida. Em 1962, havia pouco trabalho na Argentina, o panorama era obscuro e me dediquei a ser professor de tênis. Acho que éramos só três no país'', segue Branko, ativo e extremamente respeitado no tênis argentino.

Branko e Daniel Orsanic

Batata Clerc, vice-campeão da Davis em 1981, foi um de seus alunos.

O filho Daniel, claro, um outro. O resto já é história. O hoje capitão da Davis lida com uma pressão que seus antecessores, bem mais velhos, não conseguiram suportar, e com um plus: sem uma carreira de destaque enquanto tenista.

É assim que tentará, a partir de hoje, justamente no país dos seus antepassados, um título que certamente vai adoçar a Argentina já eletrizada com esta decisão.


É com esta história que o blog abre a cobertura da grande final da Copa Davis.

De agora até o ponto decisivo, traremos o olhar argentino sobre a decisão que está mexendo com o país como poucos outros eventos são capazes de conseguir.

A terra do futebol, da carne e do vinho agora é a pátria da raquete.

Aguante Argentina!

As capas do jornais ''Olé'' e ''Clarín'' nesta sexta: