Patadas y gambetas

Entenda a greve de jogadores que está parando o Campeonato Argentino

Tales Torraga

''Não se entende o que acontece no país de Messi e de Maradona. E descobrir isso é descobrir a Argentina. Também no congresso, nos tribunais e nos campos. Há sempre uma disputa interna (da interna e da interna…). Até na loja da esquina.''

É perfurante e preciso o olhar do jornal ''La Nación'' sobre a maior crise da história recente do futebol da Argentina e a greve do sindicato de jogadores que está travando o reinício do campeonato marcado para este final de semana.

A bola não rola oficialmente por acá desde 19 de dezembro!

Pérez (Boca), Damonte (Estudiantes), Vergini (Boca) e Gago (Boca) entram em reunião – FOTO: Olé

Vamos repassar cinco itens que ajudam a entender a verdadeira loucura que está agitando bastante a sempre muy loca Argentina nesta sexta-feira:

O CAMPEONATO. O Argentino 2016/2017 já prometia ser o ''torneio dos loucos'' no meio do ano passado. Foram disputadas 14 rodadas entre 26 de agosto e 19 de dezembro. A 15ª estava prevista para 12 de fevereiro e outras datas foram lançadas – todas no vazio. Boca Juniors, Newell's Old Boys e San Lorenzo são os três primeiros. O torneio está praticamente na metade. Restam 16 rodadas para o fim.

O QUE QUEREM OS JOGADORES. O acerto dos salários atrasados. Alguns clubes estão devendo até seis meses de pagamentos aos atletas, que têm recorrido a bicos em pintura e até morando na casa de torcedores. Daí a iniciativa do Sindicato dos Futebolistas da Argentina (FAA) de paralisar a competição. A crise econômica do país é tida como a responsável pela dificuldade de gerar o fluxo de dinheiro Governo-AFA-Clubes-Jogadores e os respectivos compromissos.

O QUE QUEREM OS CLUBES. Que os jogadores aceitem a oferta feita pelas agremiações para retornar ao trabalho. Os atletas querem jogar pelo Campeonato apenas depois do pagamento, o que ainda não ocorreu. Os times ameaçam escalar juvenis para escapar das punições da AFA, a Associação de Futebol Argentino.

O QUE QUER A AFA. Punir – com suspensões ou, piada pronta, multas! – os clubes que não se apresentarem para jogar a 15ª rodada (aqui, completa),  prevista para começar às 19h desta sexta-feira com Central x Godoy Cruz em Rosário. Já há árbitros sorteados, ingressos vendidos e horários de TV a preencher.

E AGORA? O Ministério do Trabalho da Argentina pressiona a AFA (que pressiona os clubes, que pressiona o sindicato…) para cumprir a programação deste final de semana. Há nova reunião AFA-FAA marcada para as 13h desta sexta. O blog apurou que os atletas estão propensos a não aceitar este novo encontro. A ver se terão poder para tal. O grande argumento da AFA é que atrasar o reinício é também atrasar a movimentação financeira que seria gerada pela retomada das partidas.

* Atualizado às 14h57:

1) O Sindicato bateu o pé; os jogadores não abriram novos diálogos e a greve está mantida. Atletas de divisões menores (equivalentes às Séries B e C no Brasil) estão acusando dirigentes de ameaças e assédios.

2) A AFA suspendeu a realização nesta sexta-feira de Central x Godoy Gruz e San Lorenzo x Belgrano. Pelo menos hoje está garantido que o Argentino não recomeça.

3) Cerca de um terço dos clubes quer levar juvenis a campo e escapar das sanções da AFA.  Alguns técnicos – Osella, do Newell's, um deles – dizem que não vão se rebaixar e comandar atletas inferiores. Os treinadores ameaçam até pedir demissão.

4) River e Boca agendaram amistosos para este sábado. Prevenção para obter ritmo de jogo caso a rodada não seja levada adiante.

5) Carlos mais uma vez é Gardel. Tevez, que fugiu da Argentina falando mal de tudo e de todos, estreia domingo pelo Shanghai Shenhua no Campeonato Chinês.

6) Escuta-se a todo momento em Buenos Aires a frase que ficou famosa no pesado 2001 (o do corralito): ''A saída para a Argentina é uma só. O Aeroporto de Ezeiza''.

7) Lojas do microcentro portenho ironizam a situação colando em suas portas o ranking da Fifa com a Argentina na primeira colocação. E ''Vale menos que a tabela da AFA'' é a gíria da vez para chamar algo ou alguém de falso.