Patadas y Gambetas

Famoso por choro contra o São Paulo, atacante hoje enfrenta AVC e falência
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Tales Torraga

Esforçado atacante do Newell's Old Boys, Julio Zamora ganhou fama na Argentina por ser o retrato da derrota para o São Paulo na Libertadores de 1992. Sua imagem em prantos no chão do vestiário do Morumbi foi eternizada pela revista ''El Gráfico'' naquela que virou uma das fotos mais emblemáticas do país daqueles tempos. Zamora tinha motivos para tamanha dor: instantes antes, convertera seu pênalti diante de Zetti e dos 105.185 torcedores presentes ao estádio naquela noite.

O choro de Zamora no vestiário do Morumbi – El Gráfico/Reprodução

O atacante tinha 26 anos e vivia o seu auge – em 1993, seria convocado para defender a seleção argentina e ganharia a Copa América, título que a azul e branca não voltou a repetir desde então. Sua carreira foi longa: Zamora correu atrás da bola até 2000, quando pendurou as chuteiras vestindo a camisa da Platense.

O seu nome estava bastante esquecido na Argentina até novembro passado, quando virou notícia por uma triste razão: técnico do Real Potosí, da Bolívia, ele sofreu um AVC em plena partida contra o Universitário, um adversário local.

Zamora parou de trabalhar e começou a encarar um drama bem pesado.

Berizzo, Martino, Scoponi, Gamboa, Pochettino e Saldaña; Berti, Lunari, Llop, Zamora e Mendoza – Newell's/Arquivo

''O contrato com o Real era até o fim do campeonato, mas quando me internaram [em novembro], o clube parou de me pagar a mim e aos ajudantes'', disse Zamora ontem (6) ao canal de TV TyC Sports, da Argentina, chorando. ''Eu e minha família penhoramos tudo o que tínhamos. O que ganhamos com o futebol, perdemos. E agora o que está em jogo é o meu carro. Os dirigentes do Potosí sequer me telefonam. Estou com problemas na visão, e mal enxergo. Os médicos disseram que vai levar um tempo para eu me recuperar, mas pelo menos eu estou vivo.''

O ex-atacante tem uma dívida de 20 mil dólares com o hospital que o tratou na Bolívia – segundo ele, o Potosí não quer assumir os gastos.

Julio está com 51 anos. ''Espero que os dirigentes assumam suas responsabilidades. Se eu estivesse em uma condição tranquila, não reclamaria nada, mas eles fizeram um projeto comigo, e agora dizem que não têm dívida nenhuma. Isso é o que mais me dá bronca.''

Tanto o Newell's quanto o Cruz Azul do México, onde também jogou, estão ajudando o ex-atacante financeiramente.

Zamora chora na TV – Reprodução / TyCSports

Julio segue morando na Bolívia. É a maneira que encontrou de reforçar o processo que move contra o Real Potosí. O Newell's já abriu uma rifa e já se colocou à disposição para pagar o seu transporte caso ele queira voltar à Argentina.

(Que gigante gesto de dignidade e solidariedade seria dado ao mundo se o São Paulo e os são-paulinos também colaborassem de alguma maneira…)


Por que só se fala em um complô pró-Boca na Argentina?
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Tales Torraga

A Argentina começou a semana ardendo em fúria e reclamações contra os erros de arbitragem em favor do Boca Juniors, líder do campeonato nacional, seis pontos à frente do San Lorenzo. Tais discussões são interessantes também ao Palmeiras, que vai enfrentar Tevez e companhia na fase de grupos da Libertadores.

Boca e San Lorenzo se cruzaram anteontem (4) no Nuevo Gasómetro em jogo que terminou 1 a 1 e com toda a sensação de que o Boca iria vencer: o Ciclón terminou a partida com nove jogadores. O primeiro expulso saiu ainda aos 42 do primeiro tempo – foi o volante Quignón, por acertar uma patada no tornozelo de Carlitos.

O San Lorenzo reclama – com razão – de três lances cruciais nesta partida apitada por Silvio Trucco: 1) o gol do Boca, marcado por Tevez, estava impedido; 2) a segunda expulsão do San Lorenzo ocorreu em um lance que nem falta foi; 3) o experiente zagueiro Fabricio Coloccini sofreu um pênalti que o árbitro não deu.

Contra o Talleres – ou seja, na partida exatamente antes do duelo contra o Boca -, o San Lorenzo também teve outros dois jogadores expulsos, e o árbitro ainda deixou de mostrar o cartão vermelho para um atleta rival. O Talleres ganhou: 2 a 0.

Capa do Olé desta terça (6) – Reprodução

O técnico Pampa Biaggio, os jogadores, os dirigentes e o presidente do San Lorenzo, Matías Lammens, espumaram publicamente depois do clássico contra o Boca. O raciocínio deles e dos demais clubes é bastante claro: o futebol argentino hoje é comandado apenas por gente de forte ligação com o time azul e ouro.

O atual presidente da Argentina, Mauricio Macri, é um ex-mandatário do clube. O hoje presidente da AFA, eleito há menos de um ano, é Claudio Chiqui Tapia, notório torcedor boquense. E o que é mais chamativo: mesmo com tantas reclamações, ele esteve na festa de aniversário de Tevez nesta segunda (5) em Buenos Aires. E o vice de Tapia na AFA é justamente o atual presidente do Boca, Daniel Angelici.

(Até o cantor Vicentico, um dos mais famosos da Argentina, entrou na onda: fez gestos de ''roubo'' ao imitar a camisa do Boca em um show em Córdoba.)

Os opositores indicam que o River Plate, arquirrival do Boca, já sentiu na pele os efeitos da ''máfia bostera'', como a desconfiança tem sido tratada pelos rivais – o River, afinal, foi eliminado pelo Lanús na semifinal da Libertadores do ano passado com uma arbitragem escandalosa e com muitos erros em favor do time que depois não ofereceria resistência ao Grêmio, especialmente na segunda partida da final.

Tapia, presidente da AFA, de branco, no aniversário de Carlitos – Twitter/Reprodução

Outro exemplo da atual força política do Boca é a mudança da seleção argentina da sua eterna casa, o Monumental de Núñez, para a Bombonera.

Tanto Marcelo Gallardo, técnico do River, quanto Rodolfo D'Onofrio, presidente do clube, deram declarações públicas neste começo de ano dizendo que iriam encarar 2018 ''com a guarda alta'', justamente para se precaver de tais favorecimentos.

Angelici, presidente do Boca, responde o mesmo a todos: ''Quem tenha provas, que as apresente na Justiça''. A mesma Justiça, afinal, que só cruzou os braços quando revelaram as escutas indicando favorecimento ao Boca contra o Corinthians na Libertadores de 2013 ou contra o Vélez em 2015.

* Atualizado: Pollo Vignolo, principal narrador da TV argentina, afirmou nesta tarde que quase apanhou da torcida do San Lorenzo no último domingo, e que dessa forma não vai mais aos estádios. O inconformismo anti-Boca está desatando ameaças a jornalistas e trocas de farpas entre dirigentes e jogadores pelas redes sociais. Já há quem defenda nas TVs e nas rádios uma paralisação do campeonato para acalmar os ânimos, ou o uso daqui por diante do árbitro de vídeo, que seria implantado só na próxima edição do sempre tumultuado Argentino.

O Boca joga a próxima rodada em casa – domingo, 20h15 (de Brasília), contra o Temperley. Neste caos, é de se esperar uma pressão desumana sobre o trio de arbitragem que for designado para trabalhar na Bombonera.


Vice da Copa-14, técnico volta a estádio pela 1ª vez desde aquela derrota
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Tales Torraga

E Alejandro Sabella reapareceu. Treinador que levou a Argentina à final da Copa do Mundo de 2014, ele estava afastado dos gramados desde a derrota para a Alemanha na decisão disputada no Maracanã naquele 13 de julho – há quase quatro anos. Sabella só voltou a pisar en una cancha neste domingo (4), na vitória de 4 a 2 do Estudiantes sobre o Newell's Old Boys no Estádio Único de La Plata.

Alejandro Sabella – Reprodução/TV

Para muitos portenhos, e não sem uma grande dose de razão, a seleção argentina acabou com a saúde de Sabella – depois do Mundial, ele teve sérios problemas de pressão e de coração, e em 2015 foi internado para tratar de um câncer na laringe.

Alejandro está com 63 anos e foi visto com uma aparência bem melhor que a de junho do ano passado, quando uma imagem sua bastante debilitado foi publicada pelo filho em uma rede social. Tanto ele quanto a família prezam pela discrição. Nada que surpreenda quem o conheceu. Sabella é, disparado, um dos personagens mais humanos e inteligentes do futebol argentino, um senhor cuja mente vai muito, mas muito além das bolas e dos gramados. Un maestro total.

Sabella no Estádio Único – Twitter/Estudiantes

O ex-técnico ganhou a maior ovação da tarde quando os alto-falantes do estádio anunciaram a sua presença em uma das tribunas do estádio onde costuma jogar o Estudiantes. Sabella não deu entrevistas e ninguém da sua família cogita uma breve volta ao trabalho. Ex-jogador de River e Grêmio, Alejandro teve uma passagem também pelo Corinthians: era assistente de Daniel Passarella quando ambos comandaram o time por apenas dois tumultuados meses em 2005.

(O Estudiantes é o nono no Campeonato Argentino depois de 14 de 27 rodadas. Os cinco primeiros são Boca Juniors, San Lorenzo, Unión, Independiente e Talleres.)


Tevez: ‘Quero virar zagueiro para devolver tudo que me bateram’
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Tales Torraga

A sinceridade de Carlitos Tevez já virou gíria em Buenos Aires. Quando uma pessoa diz algo chocante ou espontâneo, logo comete um ''Tevezcídio'', a versão portenha do ''sincericídio''. E o atacante do Boca está mesmo caprichando na construção deste personagem verborrágico e muitas vezes divertido – como foi nesta sexta-feira (2) ao falar sobre sua aposentadoria ao canal de TV TyCSports.

Tevez na Bombonera em sua volta ao Boca – Olé/Reprodução

''Vou jogar mais três anos onde estou e aí viro zagueiro'', comentou Tevez, que fará 34 anos nesta segunda (5). ''Sim, aos 37 anos vou para a caverna [ri], e saio jogando tranquilo. E o atacante de costas eu jogo pro alto. Afinal, foi o que sempre fizeram comigo, não? Vai chegar a hora de descontar'', seguiu, comentando e dando risadas, mesclando ironia e sinceridade, para terminar: ''As pessoas ficariam em dúvida se sou um rústico ou um lírico. Seria uma revolução no futebol''.

A sua presença entre os zagueiros seria mesmo uma questão de vontade e de capacidade técnica – a falta de físico não seria uma barreira. Tevez mede 1,73 metro – quase igual a Mascherano, de 1,74 metro, defensor de anos no Barcelona.

E o que pensar da sua nova declaração inusitada?

Que convém não descartá-la tão imediatamente. Tevez, afinal, tem uma lógica própria que recusa um dos maiores salários do futebol mundial na China – onde ganhava cerca de R$ 400 mil por dia – para retornar ao Boca e às patadas argentinas. ''Sentia falta dos golpes. Voltei a me sentir vivo também por eles.''

Carlitos vai então se fartar neste domingo (4) com o picante clássico entre San Lorenzo e Boca, às 20h15 (de Brasília), no Nuevo Gasómetro. O Boca lidera o Campeonato Argentino, seis pontos (33 a 27) à frente do segundo colocado – o próprio San Lorenzo. Surpresa: Unión, Talleres, Huracán e Belgrano completam os seis primeiros. Estamos na 14ª rodada de um total de 27.


Hoje rivais, Maradona e Chilavert quase jogaram Copa juntos pela Argentina
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Tales Torraga

Diego Maradona e José Luis Chilavert são os dois maiores inimigos do futebol atual, com pesadas trocas de farpas envolvendo drogas, posições políticas e até o sobrepeso do ex-goleiro. O que poucos sabem é que ambos estiveram bem perto de jogar uma Copa do Mundo juntos pela seleção argentina – a de 1990, na Itália.

Maradona e Chilavert se cumprimentam no histórico Vélez 5 a 1 Boca de 1996 – Clarín/Reprodução

Muito antes de virar um mito no Vélez Sarsfield, tirando do São Paulo a Libertadores de 1994 em pleno Morumbi, Chilavert foi goleiro do San Lorenzo entre as temporadas de 1985 e 1988. E um dos seus grandes admiradores era Carlos Bilardo, então técnico da seleção argentina. Nesta semana, em meio à avalanche de insultos a Maradona, Chilavert relembrou ao jornal ''La Nación'' algo que poucos sabiam em Buenos Aires: ele esteve perto de ceder aos esforços de Bilardo para que se naturalizasse argentino e defendesse a seleção na Copa do Mundo de 1990.

O goleiro titular da Argentina naquele Mundial era o pouco confiável Pumpido, que tomou um frango logo na estreia contra Camarões e quebrou a perna no segundo jogo, contra a União Soviética, cedendo lugar ao ainda mais limitado Goycochea.

(Como na seleção argentina até o que é certo acaba sendo escrito por linhas tortas, Goyco virou o herói do país naquele Mundial ao classificar a Argentina à decisão depois de eliminar o Brasil e de pegar pênaltis nas dramáticas cobranças contra a Iugoslávia, nas quartas, e contra a anfitriã Itália na épica semifinal de Nápoles.)

Sabendo que Chilavert estava a um passo da Argentina, a seleção do Paraguai tratou de antecipar sua convocação: ele estreou com a camisa do seu país de origem aos 24 anos, em 1989. Só jogaria uma Copa do Mundo em 1998. Saber o que ele e Maradona – e o zagueiro Cabezón Ruggeri, outro enorme desafeto do goleiro – poderiam fazer juntos em 1990 e 1994 é o exercício da vez entre os portenhos que gostam – e como gostam, ¡porfavor! – de falar sobre futebol.

A opinião corrente, pelo menos entre aqueles que estão sempre ao redor do blog, é que a Argentina – ¡por supuesto! – ganharia as duas Copas –  a dos EUA, inclusive, parando o Brasil nos pênaltis, a especialidade de Chilavert. E que o ''É Tetra!'' de Galvão Bueno em 1994 seria, afinal, para a Argentina, jamais para o Brasil.

Vocês concordam?


Como Centurión virou a ‘arma secreta’ da Argentina para a Copa
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Tales Torraga

A quinta-feira (1º) será agitada no Racing, time de Ricardo Centurión e Lautaro Martínez, dois nomes seguidos bem de perto por Jorge Sampaoli, técnico da seleção argentina. Sampaoli é esperado no clube para conversar com ambos – ontem (31), fez o mesmo com os atletas observados no vizinho Independiente.

Montagem de Centurión com camisa da seleção – TyC/Reprodução

Centurión voltou ao Racing há duas semanas. Está se readaptando ao futebol argentino depois da sua frustrante expulsão do Boca e da sua passagem de só cinco jogos e nenhum gol pelo Genoa, da Itália. Mas gente próxima a Sampaoli revela que o técnico tem o encrenqueiro jogador de 25 anos na mais alta consideração para fazer parte até mesmo da convocação para a Copa do Mundo.

Sampaoli afirma que gostaria de ver Centurión ao lado de Messi, mas de uma maneira diferente da qual todo mundo imagina: Centurión seria o garçom; Messi, o finalizador, como foi no jogo que selou a ida argentina ao Mundial com os seus três gols no 3 a 1 sobre o Equador em Quito.

Jorge analisa também que Centurión tem qualidades raras no futebol mundial: a habilidade para conduzir a bola, furar as linhas defensivas e a coragem de bancar as patadas e as provocações que Centurión diz abertamente gostar.

Como dizem os argentinos, ele é um ''atorrante'', o que em português, em seu caso, seria uma mescla de irresponsabilidade, inconsequência e falta de vergonha. É esta inconsequência argentina que Sampaoli, um próprio fruto deste estilo, quer levar para o Mundial. O treinador repete a todo momento que sonha com sua seleção jogando como o Independiente na final da Sul-Americana – com atletas de bagagem escassa, que seja, mas que não tremeram as pernas um segundo sequer na missão de calar o Maracanã mais infernal dos últimos tempos.

(O discurso de Sampaoli é encarado também como uma farpa indireta a Icardi, Dybala e Benedetto, mas mas vamos ficar só em Centurión.)

A única barreira que o ex-são-paulino vai precisar superar é a sua conduta. Sampaoli faz questão de afirmar sempre que quer atletas locos e quilomberos em campo, mas jamais fora. É por isso que a presença de Tevez na lista para ir à Rússia não é considerada pelos colaboradores do treinador. Já Centurión não se faz de rogado. Ao ser perguntado nesta terça (30) pelo jornal ''Olé'', falou em voz alta que se vê na Copa, que é ''mera questão de retomar o nível que sabe que tem''.

Sampaoli no treino do Racing nesta quinta – Racing/Divulgação

Que ninguém espere de Sampaoli um arroubo parecido. Ele avalia que Centurión pode sim oferecer um ganho importante – mas que a inconstância do jogador não permite considerá-lo mais que uma ''arma secreta'', uma opção com impacto grande ao ser colocada em prática, mas que não geraria ruído algum se precisasse ser descartada. Jorge tem dois ajudantes na missão de domar Centurión: Chacho Coudet e Diego Milito, técnico e dirigente do Racing, seus amigos.

Coincidência com a visita de Sampaoli ou não, Centurión está treinando até por conta própria, como postou na noite de ontem em suas redes sociais. A Argentina tem uma abundância de nomes pesados em seu ataque. Mas com a exceção óbvia de Messi e Agüero, nenhum deles cativou Sampaoli a ponto de já garantir um lugar na Copa. Daí vem a espera por Centurión. Da reserva do Genoa à seleção argentina na Copa do Mundo. Buenos Aires não é a capital da psicologia à toa.


O dia em que Passarella foi esfaqueado por um torcedor
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Tales Torraga

Sempre explosivo, Daniel Passarella estava ainda mais nervoso. Então técnico do River Plate, acabara de brigar com outro notório esquentado, o goleiro Comizzo, antes do último treino da pré-temporada de 1993. A noite de sexta era muy tranquila – ao contrário da tarde. Apenas Passarella e quatro colaboradores conversavam no hall do Hotel El Mirador, em Mar Chiquita, na província de Buenos Aires. Ninguém acreditou quando uma caminhonete Dodge azul chegou em alta velocidade.

Faz exatos 25 anos. E quem viveu a Argentina daqueles tempos não esquece.

Dois homens deixaram o veículo falando alto e rápido. Aparentavam descontrole. Estavam bêbados ou drogados. Ou ambos. Um dos homens partiu para cima de Passarella com uma faca, gritando ''Ponha Comizzo, seu f…. da p….''.

Houve uma luta de uns cinco minutos. Passarella conseguiu acertar um soco na cara do agressor, mas foi também golpeado e teve a orelha esquerda e a bochecha atingidas pela faca. Alguns relatos dão conta de era não era uma faca, e sim uma navalha. Mero detalhe diante da brutalidade assombrosa que chocou uma Argentina sempre acostumada a colecionar bizarrices em seu futebol.

Anos 90 'al palo': Passarella, a cara de mau e o cigarro – El Gráfico/Reprodução

Passarella foi atacado por um torcedor chamado de “Sandokan”, cujo nome verdadeiro era Miguel Alejandro Cano. Sandokan e Daniel já haviam tido um encontro violento em 1991, quando Passarella, começando como treinador, o expulsou a socos da concentração do River para parar de pedir dinheiro.

Era o começo da expansão dos negócios dos barras bravas, como são chamadas as torcidas organizadas na Argentina.

A briga e as facadas em Passarella – capitão da seleção campeã da Copa do Mundo de 1978 – alcançaram repercussão nacional naquele fim de semana mesmo. A polícia prendeu Sandokan e o manteve na cadeia por oito meses, embora ele tenha sido condenado a 180 dias de prisão. Quando ele ganhou a liberdade, Passarella já era pedido como técnico da seleção – era a ressaca da derrota argentina para a Colômbia por 5 a 0 em pleno Monumental de Núñez.

Revista El Gráfico de 9 de fevereiro de 1993 – Reprodução

Passarella virou técnico da seleção no ano seguinte – 1994 – e passou a dar entrevistas frequentes sobre este caso e sobre o perigo que representava a escalada dos barra bravas na Argentina. Não pôde fazer nada, porém, contra a AFA, que começava, em 1998, na França, a bancar a viagem dos violentos para as Copas, tema que segue vigente no país com a proximidade do Mundial da Rússia.

Ah sim: Passarella até hoje está ameaçado de ser preso por revender ingressos para a ….barra brava do River quando era presidente do clube, entre 2009 e 2013.


Doente, campeão da Copa de 78 é flagrado em calçada e comove a Argentina
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Tales Torraga

A ameaça de bomba que atrasou em duas horas o Huracán x River Plate deste domingo (28) gerou uma história que está dando muito o que falar em uma Argentina sempre ávida por dramas. Na espera para a partida, o ex-atacante René ''Loco'' Houseman, campeão da Copa do Mundo de 1978, foi fotografado, magro e debilitado, sentado em uma calçada em frente ao Palácio Ducó, a casa do Huracán.

Houseman sentado na calçada / @perazzomartin

Atacante rebelde – daí o óbvio apelido de ''Loco'' -, Houseman foi o ''rei das escapadas'' nos anos 70. Fugia da concentração para beber – em 1975, no auge, ficou muito famoso por jogar bêbado e ainda assim marcar um gol no River.

Houseman sofreu com o alcoolismo por décadas. Hoje com 64 anos, luta contra os efeitos do tratamento de um câncer na língua descoberto há três meses. Está pesando 48 quilos e conta com a ajuda da AFA para pagar suas despesas médicas.

Que ninguém tenha providenciado um lugar melhor para ele descansar antes do começo do Huracán x River é motivo de várias farpas nas TVs argentinas, que disparam com força contra os dirigentes do Huracán, clube que contou com a melhor versão do atacante, entre 1973 e 1980, quando ele jogou as Copas do Mundo de 1974 e 1978. Assim como no Brasil, na Argentina há inúmeras críticas com o que muitos avaliam como um descaso com a memória e com os idosos.

No título de 1978, há exatas quatro décadas, Houseman vestia a camisa 9 e começou o Mundial como titular – fez, inclusive, o quinto dos seis gols contra o Peru no jogo que garantiu a ida argentina à final daquela Copa vencida sobre a Holanda.

Argentina perfilada para enfrentar a França na segunda partida do Mundial 78: Passarella, Houseman,
Olguín, Tarantini, Kempes e Fillol; Gallego, Ardiles, Luque, Valencia e Luis Galván – Arquivo/AFA

(O Huracán x River terminou 1 a 0 para o Huracán. Pratto jogou os 25 minutos finais e mal pegou na bola na sua estreia em um River que é só o 19º no Campeonato Argentino. Para piorar tudo em Núñez, o líder ainda por cima é o Boca Juniors.)


CR7 x Messi: Tevez jogou com os dois e surpreende na escolha
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Tales Torraga

Que engraçado: Carlitos Tevez hoje é mais lembrado na Argentina por suas inúmeras polêmicas do que por ser um jogador capaz de atuar – e muitas vezes brilhar – ao lado de monstros como Cristiano Ronaldo e Lionel Messi.

Um Apache entre dois gênios – Infobae/Montagem

Tevez foi parceiro e amigo de CR7 no Manchester United entre 2007 e 2009. Ganharam juntos a Liga dos Campeões, o Mundial de Clubes e o Campeonato Inglês, no qual foram bicampeões. Com Messi, Carlitos participou das Copas do Mundo de 2006 e 2010 e das edições da Copa América de 2007, 2011 e 2015.

(Perdeu todas.)

Comparar os dois é impossível, segundo o hoje atacante do Boca: ''São totalmente diferentes'', comentou em entrevista à ESPN em Buenos Aires. ''Quando Messi estava começando, nem pisava na academia. E Cristiano você via todo o dia na academia. Enquanto Lio não largava a bola, Ronaldo sempre treinava faltas.''

''Cristiano sempre se preparou para ser o melhor, enquanto Messi tem isso de forma muito natural. Ele mamava quando era bebê e já estava com a bola no pé.''

E quem é melhor, Apache? Cristiano, com quem você ganhou tudo? Ou Messi, que segue incapaz de tirar a Argentina desta assombrosa fila de 25 anos sem títulos?

''Messi joga outro esporte. Ele tem outra cabeça. Faz o que quer e quando quer. Messi faz três gols e é normal, enquanto alguém para fazer três gols precisa se jogar no chão, cruzar e ir cabecear'', concluiu Tevez, em declaração digerida em Buenos Aires como uma frase tribunera – Carlitos apenas jogou para a torcida. Elaborou tal raciocínio simplesmente para fazer média com os portenhos.

Muitos na capital argentina lembraram das inúmeras matérias citando as brigas entre Tevez e Messi na seleção – ao contrário de CR7, com quem o hoje atacante do Boca sempre teve relação amistosa. Daí a declaração de Carlitos ser interpretada com surpresa, e não algo que ele tenha falado com sinceridade.

Por falar em Tevez, o seu reencontro com a Bombonera será hoje (27), às 22h30 (de Brasília), contra o pequenino Colón de Santa Fe. Será o início do seu terceiro ciclo com a camisa azul e ouro. Carlitos completa 34 anos no próximo dia 5.

O Boca tem mesmo um superataque. Resta saber se o técnico Guillermo Barros Schelotto vai estar à altura na condução do grupo (e dos seus terribles caprichos).

Joelhada de Toledo em Tevez – TV/Reprodução

* Atualizado: Tevez recebeu um grande carinho da torcida e retribuiu com uma atuação esforçada no 2 a 0 do Boca sobre o Colón. Ficou em campo durante todo o tempo e recebeu inúmeras patadas – a mais violenta delas foi a joelhada na barriga que representou o cartão vermelho para o lateral-direito Toledo. Os gols do Boca foram de Pavón e do uruguaio Nández, a grande figura. Fez um golaço de cobertura – e com ótima assistência de Carlitos.


Pratto se machuca antes da estreia e apavora o River
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Tales Torraga

Recém-saído do São Paulo, o atacante Lucas Pratto começou sua vida no River Plate com problemas. Contratação mais cara da história do clube argentino (cerca de R$ 45 milhões), ele abandonou o treinamento de ontem (25) depois de apenas cinco minutos, com dores no joelho esquerdo e com gelo na região. Exames mostraram um tendão inflamado – com isso, ele não vai nem para o banco na partida das 20h15 (de Brasília) de domingo (28) ante o Huracán, no Palácio Ducó.

Capa do ''Olé'' desta sexta (26) – Reprodução

O jogo é essencial para o River subir no Campeonato Argentino. O clube é só o 17º e se vê obrigado a diminuir a distância para o líder Boca Juniors, que soma exatamente o dobro de pontos – 30 a 15 até aqui.

O River informou que o problema de Pratto não é um grave, e que sua complicação é típica das cargas da pré-temporada. Os médicos descartaram também um problema em suas articulações. O tratamento pelo qual Pratto vai passar neste final de semana consiste em anti-inflamatórios e fisioterapia, e há a possibilidade de ele fazer um treino leve neste sábado (26).

A versão oficial, porém, não impede que sérias desconfianças pairem sobre Núñez.

Há um verdadeiro pavor no River para que Pratto não repita os casos do zagueiro Luciano Lollo e do atacante Marcelo Larrondo, que chegaram ao clube em 2016 custando, juntos, cerca de R$ 35 milhões. Mas ambos mal entraram em campo. Estiveram sempre machucados.

Lollo atuou em só nove oportunidades – operou o pé mais de uma vez e segue sem manter uma sequência na equipe. O caso de Larrondo é ainda mais grave – sofreu nove lesões desde que chegou ao River. Fez apenas 11 partidas e um único gol. Gente próxima a Larrondo diz que ele pode até parar de jogar.

Somando os dois, fizeram 20 jogos – e custaram R$ 35 milhões.

Ninguém no River admite, mas há uma verdadeira batalha nos corredores do Monumental para saber por que tais investimentos não são revertidos em rendimento. Foram falhas nos exames médicos antes das contratações? Erro na dosagem dos treinamentos com os recém-chegados?

Em vez de amenizar as críticas, a chegada de Pratto por enquanto só aumentou as desconfianças suscitadas pelos casos de Lollo e Larrondo. O técnico Marcelo Gallardo disse que contava com o ex-são-paulino para o segundo tempo do amistoso do último domingo contra o Boca, mas o jogador ficou o tempo todo tomando mate em uma cadeira de plástico, vestindo uniforme de viagem.

Disse depois que iria jogar contra o Huracán, e durou só cinco minutos no coletivo.

No fim do ano passado, Pratto cansou de repetir no São Paulo que ''sua perna não estava legal e que estava jogando no sacrifício''.

(Enquanto isso, Tevez já fez dois amistosos pelo Boca e é presença garantida amanhã às 22h30 na Bombonera contra o Colón.)

* Atualizado: Gallardo deu uma reviravolta na situação de Pratto e o colocou nesta tarde na lista de concentrados para enfrentar o Huracán. Maneira de amenizar as críticas? Ou uma melhora efetiva – e surpreendente – na condição do atacante? O domingo vai nos responder.