Patadas y Gambetas

Título argentino e pedido do técnico: como o Boca voltou a querer Centurión
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Tales Torraga

O Boca Juniors é o novo campeão argentino. A conquista antecipada foi definida hoje (20) sem o clube sequer precisar jogar: o Banfield perdeu por 1×0 para o San Lorenzo no Nuevo Gasómetro e não pode mais alcançar o time xeneize.

Foi a 32ª conquista nacional do Boca – contra 36 do River. Foi também o primeiro título do ídolo bostero Guillermo Barros Schelotto como treinador do clube.

Se a taça não viesse hoje, desta quarta (21) ela dificilmente escaparia, com o Boca enfrentando o Olimpo (o 19º no torneo) na cidade de Bahía Blanca às 19h45.

Com a estante reservada para receber o novo troféu, o Boca já começou a traçar os planos para a Libertadores 2018 – e Ricky Centurión, apesar de tudo, segue neles.

A triste conduta extra-campo do jogador e o escândalo da denúncia de violência doméstica feita pela sua ex-namorada fizeram o Boca sinalizar que ele não seguiria na equipe – e que Centurión depois do dia 1º de julho voltaria ao São Paulo, que quer US$ 6 milhões (R$ 19,8 mi) para o empréstimo virar contratação.

Centurión e Schelotto – Reprodução TN

Mas Schelotto, de corpo presente, pede, quase exige, a permanência do jogador, o que a diretoria pode atender resolvendo dois problemas em um só. 1) Lavar as mãos e encarregar a disciplina de Centurión à responsabilidade do treinador. 2) Não lidar com a fúria da torcida que vai se ver sem um dos seus xodós enquanto o inimigo River Plate joga a atual Libertadores com boas chances de ganhá-la.

Rogério Ceni disse na semana passada que Centurión tem ''grande valor de mercado'', e o Boca, por supuesto, sabe disso. Daí muitas pessoas metidas no mundo Boca consultadas pelo blog entenderem esta ''rejeição oficial'' a Centurión como mero despiste para acuar o jogador – reduzindo as cifras do futuro contrato – e o São Paulo – que poderia baixar a pedida mediante a ficha corrida do atleta.

Centurión, vale lembrar, esteve metido nesta acusação de agredir a ex quando o presidente do Boca, Daniel Angelici, estava fora da Argentina para contratar Sampaoli para a seleção. Foi Angelici pisar o solo portenho para o caso desaparecer do noticiário. Não há mais nada a respeito na mídia portenha – e todos os envolvidos, de acusação e defesa, estão no mais absoluto silêncio.

A rejeição que a sociedade argentina imediatamente impôs a Centurión também esmoreceu, e aí também são mais duas razões que ajudam a explicar.

O título do clube – e a torcida do Boca corresponde a 46% da população do país – evidentemente deixa uma última impressão que ajuda a esconder os desmandos do atleta. E a sociedade argentina é tão complexa e volátil que é capaz de se considerar “respeitosa” e atacar sua própria “falta de respeito”, como mostra pesquisa levada às bancas nesta terça pelo jornal ''Clarín''.

Em português claro: este país é uma loucura sem fim.

Por mais que a diretoria adote o contorcionismo em seu discurso, a chance de Centurión seguir no Boca é, de acordo com o que apurou o blog, de cerca de 60%. A acusação de violência, como tantas outras coisas na Argentina, vai ficar para trás na cabeça de muitos. Se não fosse assim, o atual goleiro do Boca, Agustín Rossi, também acusado de agredir a ex-namorada, não seria o titular da equipe.

* Atualizado às 19h50 com o desfecho do campeonato.


Apoio de Maradona tirou Gamboa da depressão
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Tales Torraga

Bater um pênalti nas mãos de Zetti – e perder a Libertadores por uma falha sua – não seria nada diante do que Fernando Gamboa precisaria encarar depois.

Zagueiro-craque daquele Newell’s, Gamboa voltou a ter o nome falado no Brasil 25 anos depois do erro que culminou na conquista do São Paulo. Mas poucos sabem: ele é mais um personagem argentino a flertar com a tragédia e se reerguer.

Fernando Gamboa, hoje técnico do Gimnasia de Jujuy – El Gráfico/Reprodução

Gamboa saiu do Newell’s em 1993. Defendeu depois River, Boca, Real Oviedo, voltou ao Newell’s, e jogou por Chacarita, Colo-Colo, Grasshopers e Argentinos Juniors. Pendurou as chuteiras em 2005, com o púbis detonado. Tinha 35 anos.

Foi aí que o zagueiro que esbanjava rigor e patadas ficou totalmente sem defesa.

“Tive depressão por um ano. Não foi uma depressão daquelas que te deixa de cama. Comigo não. Eu ficava de-bai-xo da cama. Se foi terrível? Parecia que iria morrer. E se conto isso é para que os jogadores se preparem. O futebol não te prepara para o dia seguinte. Nada te satisfaz, nada te preenche, eu não sabia o que fazer da minha vida depois de parar de jogar. É só pensar: como alguém que se dedica para uma coisa dos cinco aos 35 anos de idade vai parar de fazer essa coisa e ter vida fácil? Não foi nada fácil, che…”, revelou Gamboa à revista “El Gráfico”.

O roteiro que ele vivia era habitualmente cruel: a depressão profunda foi acompanhada por constantes problemas com os filhos e com a esposa. “Ela me trancava fora de casa, porque só assim eu deixava um pouco o quarto e saía daquele mundo de sofrimento, porque nem conseguia brincar com as crianças.”

Gamboa começou a terapia. Foi quando surgiu Maradona. A reverência de Gamboa a Diego é tão profunda que ele só o trata como “Armando”: ''Eu o chamo assim porque os especiais, os distintos, eu chamo de um jeito diferente de todo mundo''.

Gamboa no auge da fase galã (e provavelmente sem imaginar que um dia teria depressão profunda) Arquivo/NOB

“Armando salvou minha vida, papá!”, exclamou o ex-zagueiro em entrevista deste fim de semana a qual o blog teve acesso. É claro que Maradona não salvou ninguém – foi a força de vontade de Gamboa que o tirou do buraco. Mas o exagero tipicamente argentino tem razão de ser. Maradona e Gamboa jogaram juntos no Boca em 1995 e 1996. Década depois, se reencontraram. A convite de Maradona, Gamboa passou a atuar ao seu lado nas partidas de showbol. Era 2006.

“Você sabe o que é entrar no vestiário e ser beijado e abraçado por Armando, ele virar para você e dizer: ‘Conte comigo para o que você precisar, pois te considero meu amigo’? Aqueles foram os gestos mais perfeitos que eu poderia receber. Jamais tolero que falem mal de Armando. Bielsa foi meu pai. E Armando, com certeza, meu irmão mais velho que me ajudou eu quando mais precisei.”

A ajuda de Maradona a Gamboa foi muito além do showbol. Foi por influência de Diego que o ex-zagueiro começou como técnico, na base do Boca, em 2007.

A afinidade entre El Fer e El Diez era tamanha que Gamboa chegou a ser anunciado como colaborador de Maradona nos tempos em que Diego era o técnico da seleção argentina. O vínculo precisou ser rompido porque a AFA não bancou a ideia – foi esta a versão oficial, pelo menos.

O caminho de cada um voltou a seguir rotas diferentes, mas Gamboa não esquece Maradona. Muito menos os dias terríveis que passou.

Gamboa e Maradona no showbol – Arquivo/NOB

“Hoje faço questão de começar meu trabalho mais cedo e beijar cada um dos meus jogadores. Pergunto como estão, o que fazem, a minha relação não é de técnico para jogador. É de ser humano para ser humano. E te digo, loco: não tem dinheiro que compre um atleta seu chegar mais cedo ao treino só para conversar contigo e se abrir em questões que eu, com minha idade, já passei e posso ajudar.”

Gamboa está com 46 anos e dirige o Gimnasia de Jujuy, da Segunda Divisão. Mas a elite, a Libertadores e o futebol ficam em último plano quando a amizade faz alguém ter forças para começar de novo. Faz alguém volver a empezar.

(Este é dos clipes mais lindos da Argentina. Produzido pela volta de Maradona ao Boca e para incentivar El Diez a largar a cocaína. As cenas de Diego são tocantes.)


Libertadores de Raí em 1992 teve Sustagen na dieta e retiros em Atibaia
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Tales Torraga

POR GIANCARLO LEPIANI*

O caminho percorrido por Raí até o pequeno palco onde ele levantou a primeira Libertadores conquistada pelo São Paulo, há exatos 25 anos, na noite de 17 de junho de 1992, foi tortuoso e inusitado. As imagens que ficaram na cabeça do torcedor foram a frieza exibida pelo camisa 10 na hora de cobrar o pênalti que garantiu a vitória sobre o Newell’s no tempo normal (e também no momento de voltar a encarar o goleiro Scoponi na disputa da marca da cal) e sua corrida para abraçar Telê Santana no momento em que Zetti defendeu a batida de Gamboa.

Raí com a Libertadores em 1992 – Conmebol/Reprodução

A Libertadores de Raí, no entanto, foi uma maratona com obstáculos – em que o capitão teve de lidar com a exaustão provocada por um calendário esdrúxulo ao mesmo tempo em que era levado a transformar seu papel dentro do elenco, exercendo uma liderança mais contundente e efetiva. Não é exagero dizer que o Raí que comandou tantas outras campanhas vitoriosas – no São Paulo, na seleção e no PSG – foi moldado por aquele atribulado e glorioso primeiro semestre de 1992.

Então com 26 anos, Raí iniciou a temporada num patamar diferente em sua carreira: os títulos paulista e brasileiro em 1991 haviam finalmente dissipado qualquer dúvida sobre seu talento. Depois de encerrar o ano anterior atropelando o Corinthians com seus três gols na decisão estadual, entrou em 92 como titular absoluto da seleção de Carlos Alberto Parreira e esperança do São Paulo para expandir suas fronteiras. Era cotado para reforçar o Real Madrid na janela de transferências europeia.

Mas a agenda de jogos a que foi submetido – que faz o calendário atual parecer uma grande moleza – quase colocou tudo a perder. Para os clubes brasileiros, a participação na Libertadores era encaixada na base do jeitinho em meio às partidas do Campeonato Brasileiro, à época disputado no primeiro semestre. Somando-se a isso as convocações para defender a seleção, Raí se deparava com uma sequência insana de viagens, treinos e jogos. Para alguém que dependia tanto da parte física para render tudo o que podia, era uma situação espinhosa.

Por causa do calendário apertado, o camisa 10 começou a Libertadores no banco: em 6 de março de 1992, o São Paulo foi a campo para enfrentar o Criciúma com Eraldo como titular. Raí entrou quando a parada já estava quase definida. A derrota por 3 a 0 na estreia colocou em dúvida as chances de sucesso da equipe na competição. A virada começou na viagem à Bolívia para pegar San José, em Oruro, e Bolívar, em La Paz. Os dois jogos foram disputados num intervalo de quatro dias e o São Paulo voltou para casa com uma vitória e um empate.

Menos de 72 horas depois de marcar seu primeiro gol na Libertadores, contra o Bolívar, Raí já estava de volta ao gramado do Morumbi para liderar uma goleada sobre o Atlético-PR: 5 a 0. No início de abril, foi a vez de o São Paulo receber o Criciúma e dar o troco pela primeira rodada: 4 a 0, com Raí abrindo o placar. Três dias depois, visita ao Cruzeiro no Mineirão, São Paulo 2 a 0, com Raí marcando o primeiro e servindo Müller no segundo, depois de tomar a bola de um zagueiro no meio e avançar como um trator até a área. A essa altura da temporada, Raí parecia imparável. Foi quando as pernas começaram a pesar.

Além da sequência cruel de jogos e deslocamentos sem tempo para treino e descanso, Raí ainda tinha de lidar com o peso da capitania. No início do ano, comandou uma reunião do elenco para colocar a casa em ordem depois de alguns tropeços. Depois, lidou com o desgaste da dispensa do lateral Nelsinho, decisão da diretoria que desagradou Telê e revoltou os atletas. Em maio, com o São Paulo já envolvido nos mata-matas da Libertadores, Raí teve seus nervos e seu fôlego colocados à prova.

A certa altura do mês, por exemplo, jogou a ida das quartas contra o Criciúma, foi à Europa para um amistoso entre Brasil e Inglaterra em Wembley e retornou às pressas para o duelo de volta, em Santa Catarina. Passou boa parte de seu 27º aniversário numa poltrona de avião, voando sobre o Atlântico, na ida a Londres. “Não sou de ferro. Estou cansado”, confessou no retorno. Quase sem dormir, não jogou bem contra o Criciúma.

No finzinho do jogo, foi expulso numa troca de empurrões com o ponta Jairo Lenzi. O desgaste tinha feito Raí deixar de ser Raí. O capitão precisava de um alívio. Ao invés disso, ganhou um presente de grego: viagem à sufocante Belém para encarar o Paysandu quatro dias depois do frio catarinense.

Suspenso no jogo de ida da semi, contra o Barcelona do Equador, em casa, Raí voltou ao time no jogo de volta, em Guayaquil. Foi muito mal – a ponto de ter sido substituído por Macedo no decorrer da partida. “Parecia arrastar 500 quilos em cada perna. Cheguei em casa, vi o teipe do jogo e não acreditei. Parecia que estava doente”, contaria depois. Pior: Raí carregava também o peso de saber que era a principal referência do time, de constatar que os companheiros caíam de produção quando o viam fora de sintonia.

Para um capitão reconhecidamente tímido e introspectivo, era um abacaxi a mais para descascar: como transmitir segurança aos demais num momento em que tentava superar suas próprias adversidades? “Até agora não exerci a liderança como queria. Estava esgotado e cheguei a atrapalhar a equipe”, dizia, às vésperas de encarar o Newell’s.

Alarmada com a situação de seu maior craque, a comissão técnica traçou um plano para fazê-lo relaxar e recarregar as baterias. Foram dias inteiros de repouso absoluto e superalimentação. O médico Marco Antônio Bezerra incluiu vitamina B-12, medicamentos contra fadiga muscular e até Sustagen na dieta do camisa 10. Às vésperas dos jogos mais importantes de sua vida até aquele momento, ao atleta exemplar que ganhou notoriedade pela saúde de ferro e pelo arranque de cavalo era ministrada a suplementação alimentar normalmente receitada a criancinhas malnutridas.

Depois da viagem a Rosário, onde Raí fez boa partida na primeira final contra o Newell’s, outra rodada de restauração física e mental: enquanto um time misto encarava o Flamengo no Maracanã, Raí passava o fim de semana com a família num hotel em Atibaia. O resto do elenco se juntou ao capitão na estância hidromineral nos dias que antecederam a finalíssima. Na concentração, no Park Hotel, Raí contou ter sonhado várias vezes com um Morumbi completamente lotado.

Talvez por isso, já estava preparado para duelar com Scoponi na batida do pênalti mais importante da história do clube. “Quando caminhei para a bola, senti o nível de tensão no estádio. Estranhei minha reação de calma. A cada passo que dava para a bola, meu coração quase parava. Mas me segurei.” Raí cobrou firme, sem hesitar, deslocando o goleiro argentino. Cerca de 40 minutos depois, já na madrugada do dia 18, estava com a taça em suas mãos.

* GIANCARLO LEPIANI, jornalista, é um dos criadores do ''Projeto Tóquio'', que revive o dia-a-dia do São Paulo em 1992 no Facebook, Instagram e Twitter.

** NOTA DO PATADAS y GAMBETAS: Que fique aqui o mais cálido abrazo portenho a todos os são-paulinos nesta data querida. Raí, Telê Santana e, como se não bastasse, Paula Toller! Era tanta gente boa junta que parece mesmo que vocês tiveram um sonho, muchachos.

Que a alegria desse dia mágico acompanhe vocês siempre y siempre! Saludos!


1992: Por onde andam os principais nomes daquele São Paulo x Newell’s?
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Tales Torraga

COM GIANCARLO LEPIANI*

Confira o que fazem hoje os protagonistas da noite de 25 anos atrás no Morumbi, quando o São Paulo derrotou os argentinos do Newell's em uma dramática final.

Tata Martino e Raí antes da decisão – Conmebol/Reprodução

Raí x Tata Martino
O capitão do São Paulo resistiu ao assédio do futebol europeu por mais um ano, conquistando o bi da Libertadores em 1993 antes de rumar ao PSG. Apesar da separação momentânea, sua trajetória continuaria sendo ligada ao clube: em 1998, retornou ao Morumbi para suas temporadas derradeiras como atleta. Já aposentado dos gramados, ocupou brevemente um cargo na administração do clube.

Em 2017, foi nomeado um dos integrantes do Conselho de Administração do São Paulo. Segue buscando não se limitar às fronteiras do futebol: é um dos criadores de uma ONG que se dedica à educação infantil, apresentou uma série sobre Londres na TV a cabo, participa da associação Atletas pelo Brasil e é sócio de uma empresa de gestão de marcas de esporte, cultura e design.

O meio-campista Tata Martino brigou com a diretoria e foi repassado ao Lanús em 1994. Voltou ao Newell's em 1995  – e voltou a brigar com o clube. Saiu de Rosário naquele mesmo ano, mas passou a batizar uma tribuna do Coloso del Parque.

Começou a carreira de técnico em 1998 – depois de penar por quase dez anos, assumiu a seleção paraguaia (2007-2011), o Newell's (2012-2013), o Barcelona (2013) e a seleção argentina (2014-2016). Ganhou um Argentino com o Newell's e uma Supercopa da Espanha com o Barcelona. Hoje treina o Atlanta United, dos EUA. Está com 54 anos.

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Macedo x Fernando Gamboa
Depois de sofrer o pênalti cometido por Gamboa e ganhar a fama de talismã, Macedo jamais emplacou como se esperava. Permaneceu no elenco são-paulino até 1993, mas nunca se firmou como titular – aparecia mais como o alvo mais frequente dos puxões de orelha de Telê do que pelo sucesso em campo.

Transferido ao Cádiz, da Espanha, iniciou uma trajetória quase cigana, alternando boas passagens por clubes como o Santos e a Ponte Preta  com oportunidades desperdiçadas em equipes como Cruzeiro e Grêmio. Seu último clube foi o União Mogi, na Série A-3 do Paulista. No fim da carreira, confessou enfrentar dificuldades financeiras – apesar dos repetidos e insistentes conselhos de Telê, que sempre mostrou preocupação com o futuro do pupilo.

Falastrão, cabeludo e sex symbol, o zagueiro Gamboa cometeu o pênalti no tempo normal e desperdiçou sua cobrança naquela noite no Morumbi. A falha não tirou a pompa de grande zagueiro argentino daqueles tempos. Passou depois por River e Boca, e por pouco não defendeu a seleção na Copa do Mundo de 1994. É técnico desde 2007. Comandou o Newell's por uma curta e negativa passagem em 2008. Está com 46 anos, cabelos curtos e dirige o Gimnasia de Jujuy, da Segundona.

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Zetti x Norberto Scoponi
Depois de conquistar duas vezes a Libertadores e o Mundial de Clubes, Zetti entregou a meta do São Paulo aos cuidados de Rogério Ceni em 1997. Também defendeu Fluminense, União Barbarense e Sport antes de pendurar as luvas. Depois de se afastar do futebol por dois anos, retornou para tentar a carreira de técnico. Rodou por onze clubes, incluindo Bahia, Ponte Preta e Atlético-MG.

A realidade da profissão de treinador no país o deixou desiludido – cansado das frequentes mudanças de cidade, da intempestividade dos cartolas e da bagunça generalizada nos clubes, largou a função, mas não se afastou de vez da bola. Nos últimos anos, abriu uma escola especializada na formação de goleiros e passou a trabalhar como comentarista.

El Gringo Scoponi é tão conhecido pelas suas defesas quanto pelo seu gosto roqueiro. Depois do Newell's, passou para o Cruz Azul do México em 1994, onde ficou até 1998, quando se aposentou no Independiente. Hoje tem 56 anos e desenvolve escolinhas de futebol em Rosário – sempre tomando mate e sempre ouvindo rock. É muito famosa sua recusa à seleção argentina de Daniel Passarella em 1998. ''O Tolo Gallego [assistente do Kaiser] veio me perguntar se eu queria cortar o cabelo e ir para o Mundial, e respondi que só cortaria o cabelo no dia em que ele emagrecesse 30 quilos'', costuma repetir o ex-goleiro.

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Palhinha x Mauricio Pochettino
Palhinha fez história no São Paulo, chegando a três finais consecutivas de Libertadores. Na derradeira, contra o Vélez, desperdiçou sua cobrança na disputa de pênaltis no Morumbi e assistiu à festa do time de Chilavert. Mas ele ainda faria as pazes com o torneio sul-americano: negociado com o Cruzeiro dois anos depois do dolorido vice diante do Vélez, voltou a ser campeão da Libertadores em 1997.

Transferido ao Mallorca, iniciou um périplo que o levaria a defender mais de uma dezena de equipes até encerrar a carreira, em 2006, no Guarulhos. Tentou a carreira de treinador, passando por clubes do interior de São Paulo e Minas Gerais, mas viu sua vida se transformar de vez em 2013, quando se mudou com a família para os Estados Unidos. Agora preside o Boston City, das ligas inferiores do país.

O zagueiro com a responsabilidade de marcar Palhinha era Mauricio Pochettino, que em 1994 já desembarcaria na Europa para seguir carreira do Espanyol e no Paris Saint-Germain. É um dos técnicos do momento no Velho Continente, levando o Tottenham ao vice-campeonato do Campeonato Inglês. Tem 45 anos.

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Ivan x Eduardo Berizzo
Zagueiro revelado na base do São Paulo, Ivan conquistou a América como lateral-esquerdo depois que o clube dispensou Nelsinho no meio da competição e perdeu Ronaldo Luís, machucado, nas fases mais decisivas da Libertadores. Acabou sendo um improvável protagonista: coube a Ivan uma das cobranças de pênaltis na decisão contra o Newell’s. Campeão dos troféus Ramón de Carranza e Teresa Herrera, acabou aparecendo bem e ganhando uma chance no futebol espanhol.

Contratado pelo Valladolid, Ivan construiu uma boa carreira na Espanha, onde permaneceu por quase uma década e defendeu Atlético de Madrid, Alavés e Mallorca, entre outros. Ao retornar ao Brasil, defendeu Sport, União São João e Paulista de Jundiaí – onde foi comandado pelo ex-companheiro Zetti. Em 2007, virou agente Fifa e abriu uma empresa para gerenciar a carreira de atletas.

Zagueiro como Ivan, Eduardo Berizzo não teve o mesmo sucesso, parando na trave naquela decisão por pênaltis. Deixou o Newell's em 1993, defendendo Atlas-MEX, River Plate, Olympique de Marselha, Celta de Vigo e Cádiz. Era técnico do Celta de Vigo e acaba de acertar com o Sevilla para suceder Jorge Sampaoli.

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Telê Santana x ''El Loco'' Bielsa
A conquista de 92 acabou vinculando a carreira de Telê para sempre ao São Paulo. Sondado por clubes da Europa, ele vinha dando pistas de que pretendia encarar uma derradeira aventura internacional antes que fosse tarde demais. O título da Libertadores o convenceu a ficar para o Mundial contra o Barcelona.

As sucessivas conquistas aumentavam o interesse por Telê no exterior (foi apontado até como candidato a substituir Cruyff no Barça). Ao mesmo tempo, porém, os títulos aprofundavam sua ligação com o São Paulo, onde acabou permanecendo até o fim da carreira, interrompida de forma abrupta por uma isquemia cerebral no início de 1996. Telê Santana jamais conseguiu se recuperar completamente. Dez anos depois, morreu em decorrência de uma infecção intestinal, em Belo Horizonte. Ele tinha 74 anos.

''El Loco'' Bielsa está com 61 e é um dos maiores técnicos da história do futebol argentino. A derrota na Libertadores de 1992 o tirou do Newell's, mas a admiração do clube por ele é tamanha que o estádio da equipe se chama nada menos que Estádio Marcelo Bielsa.

Sua carreira pós-1992 seguiu por México, Espanha e Vélez Sarsfield, até assumir a seleção argentina em 1998, no lugar de Daniel Passarella. Ficou no cargo até 2004 depois de um ouro olímpico (Atenas 2004) e de uma eliminação na primeira fase da Copa de 2002. Brilhou também na seleção do Chile, no Athletic Bilbao e no Olympique de Marselha. Assumiu recentemente o Lille, da França, com o seu eterno objetivo de fazer um time pequeno incomodar o establishment mundial.

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* GIANCARLO LEPIANI, jornalista, é um dos criadores do ''Projeto Tóquio'', que revive o dia-a-dia do São Paulo em 1992 no Facebook, Instagram e Twitter.


Libertadores 1992, 25 anos. Veja 25 curiosidades da conquista do São Paulo
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Tales Torraga

COM GIANCARLO LEPIANI*

O futebol na América do Sul jamais foi o mesmo depois de 17 de junho de 1992, quando o São Paulo e Telê Santana ensinaram o Brasil a tomar pelo menos um pouco da ''mística copeira'' que caracterizava a Argentina até então.

Aquela histórica decisão entre São Paulo e Newell's Old Boys no Morumbi completa exatos 25 anos neste sábado (17) – mas temos tanto material que abrimos, hoje, sexta (16), nossos posts especiais sobre esta final que resiste ao passar do tempo.

Começamos listando 25 curiosidades sobre o São Paulo x Newell's que terminou…assim. Até os argentinos reconhecem: nem eles, muito mais loucos, fariam melhor.

1.
Enquanto o Newell’s ficou hospedado no Novotel Morumbi (onde a direção pediu à gerência para que fosse tocado tango nos alto-falantes do saguão), o São Paulo se preparou para a finalíssima se isolando no Park Hotel, em Atibaia. Telê Santana contou que os próprios jogadores pediram para sair da capital paulista porque admitiram que havia um excesso de ansiedade para a decisão.

2.
Na semana anterior, em Rosário, a ameaça à concentração do time era outra: o Hotel Presidente, indicado pelo Newell’s para abrigar a delegação são-paulina, recebia ao mesmo tempo um concurso de modelos. O ex-técnico José Poy, que serviu como uma espécie de embaixador do clube na Argentina, se preveniu contra eventuais escapadas dos jogadores antes da partida: colocou o segurança Valdir de plantão na escadaria que levava aos quartos das modelos argentinas.

3.
Os direitos de transmissão da partida eram exclusivos da recém-criada rede OM, retransmitida em São Paulo pela Gazeta. A final foi narrada por Galvão Bueno, com comentários de Roberto Avallone e reportagens de Raul Quadros e Mário Jorge Guimarães. Antes do jogo, a emissora fez uma prévia especial da decisão entrevistando ex-jogadores do São Paulo, como Mauro, Zizinho e Dias, no Morumbi.

4.
Mauro, aliás, vivia um dia especial: jogador do São Paulo por mais de uma década, ele comemorava exatamente naquele dia o trigésimo aniversário da conquista da Copa do Mundo de 1962, no Chile, em que ele foi o encarregado de levantar a taça Jules Rimet.

5.
Raí e outros líderes do elenco negociaram algumas semanas antes a premiação pelo título: 10.000 dólares por jogador. Depois da conquista, a direção resolveu aumentar o prêmio para 15.000 dólares, anunciando o bônus ainda no vestiário. Somado ao valor obtido com a classificação para a final, o prêmio total foi de 20.000 dólares – para os novatos do elenco, isso era o equivalente a um ano de salários.

6.
Entre os contemplados com a premiação estavam o lateral Nelsinho, que disputou cinco partidas da competição antes de receber passe livre e se transferir para o Corinthians, e vários novatos. Na lista dos coadjuvantes que têm esse título no currículo estão o ponta Catê, o zagueiro Gilmar, o volante Mona, o meia Eraldo e o atacante Cláudio.

7.
Reserva de Zetti na final, o goleiro Alexandre teve participação importante na campanha: atuou em três partidas de mata-mata em função da expulsão do titular no Estádio Centenário, contra o Nacional, numa troca de agressões com um atacante uruguaio. O promissor arqueiro de 20 anos, que aparece torcendo ao lado de Telê durante a disputa de pênaltis, morreria um mês depois, na manhã de 18 de julho de 1992, num acidente de carro.

8.
Pintado foi um titular inesperado na campanha: revelado no próprio São Paulo, ele passara anos perambulando por clubes do interior, sempre por empréstimo. Telê pediu seu retorno para ter uma opção de banco. O volante incansável e brigador conquistou seu espaço e chegou à final como peça importante do time – ainda mais num duelo contra o Newell’s. Terminou a partida pendurado com um amarelo e com um corte profundo no queixo .

9.
Aos 17 minutos do segundo tempo, o Morumbi inteiro pede a entrada de Macedo. Depois de começar o ano de forma irregular, sendo inclusive vaiado pela torcida, o atacante revelado pelo Rio Branco vinha de boa sequência de partidas e pedia passagem na equipe. “É hora de sair da toca”, dizia ele na semana anterior.

10.
Telê colocou Macedo em campo três minutos depois do coro da torcida. Ele substituiu Müller.  Gamboa agarrou o atacante na área logo em seu primeiro lance. Depois do jogo, o talismã confessou  que não sabia ao certo o nome do adversário (“É Boys alguma coisa”).

11.
Ainda no vestiário, o herói improvável da final também revelou qual seria a primeira coisa que faria como campeão da América. Contou que, no dia seguinte, voltaria à sua cidade, Americana, para fazer o pedido oficial de casamento à família de sua noiva. “Vou até ajoelhar. Essa não vai dar para driblar.”

12.
O árbitro colombiano José Joaquín Torres Cadenas encerrou o jogo sem nenhum acréscimo, deixando a decisão para os pênaltis – um desfecho que Telê não queria de jeito nenhum. Durante a semana, ele falou abertamente que o objetivo da equipe era evitar a todo custo a definição na marca da cal.

13.
Apesar disso, Telê comandou um treinamento de penalidades às vésperas do jogo. Do lado argentino, “El Loco” Bielsa dispensou essa atividade: ele e seus comandados diziam ter certeza absoluta que resolveriam a parada no tempo normal.

14.
Bielsa, aliás, não acompanhou a decisão no gramado: foi expulso pelo árbitro aos 33 do segundo tempo por exagerar na reclamação depois de um cartão amarelo a Gamboa, por falta violenta em Macedo. Enquanto ia para o vestiário, apareceu na transmissão de TV chamando o colombiano de “hijo de puta” e “ladrón”.

15.
No momento das cobranças de pênalti, a rede OM bateu nos 35 pontos de audiência, o maior ibope da história da emissora. Mais da metade dos televisores ligados estavam sintonizados no canal. Galvão Bueno anunciava os números em tempo real durante a transmissão, em meio a chamadas para um show de Zezé di Camargo & Luciano e para a exibição do controverso filme Calígula.

16.
O pênalti de Gamboa foi cobrado exatamente como Valdir Joaquim de Moraes havia previsto: no canto baixo esquerdo de Zetti. O veterano preparador de goleiros foi a Cáli para acompanhar a semifinal entre Newell’s e América, também decidida nos pênaltis. Trouxe na bagagem uma lista com os detalhes de todas as cobranças dos argentinos. Quando Gamboa se preparou para bater, Zetti já sabia como seria o chute – depois do jogo, contou que tinha total convicção de que o título seria ganho naquele momento.

17.
Valdir Joaquim de Moraes, aliás, desabou em lágrimas depois da defesa de Zetti. Com 45 anos de estrada no futebol, o auxiliar e amigo de Telê Santana afirmava, entre soluços: “Poucas vezes me emocionei tanto na vida”. “Zetti, Alexandre e Marcos são meus três filhos”, disse, citando o titular e seus dois reservas imediatos.

18.
Caso Gamboa acertasse sua cobrança, o último penal do São Paulo seria batido por Pintado. No decorrer da semana, nos treinamentos comandados por Telê, o volante chegou a provocar irritação no técnico ao errar sua cobrança tentando um chute colocado e mandando para fora. Apesar disso, topou ser o último batedor da série. Ronaldo, o único são-paulino a desperdiçar seu pênalti contra o Newell’s, também errou ao tentar um chute colocado no treino.

19.
Raí teve de esperar cerca de 55 minutos no gramado antes de conseguir retornar ao vestiário. Em função da invasão de campo, a entrega da taça, num palanque modesto, atrasou. Depois, o capitão teve dificuldades para driblar a multidão. “Acho que entrei para a história”, dizia, parecendo custar a acreditar no que havia acontecido.

20.
O camisa 10, por sinal, revelara antes da decisão que tinha sonhado várias vezes com o Morumbi lotado nas noites anteriores. Na hora de dar um palpite sobre o placar, porém, Raí errou feio: ele apostava que o São Paulo atropelaria por 3 a 0.

21.
Por falar em previsões furadas, Gamboa havia assegurado que seria o grande herói da decisão. Ainda no vestiário do Gigante de Arroyito, em Rosário, depois da primeira partida da final, o zagueiro prometia, enquanto ajeitava a longa cabeleira: “Seremos campeões e vou fazer um gol de cabeça”.

22.
O público pagante no Morumbi foi de 105.185 pessoas, o maior da história da Libertadores. O público total é uma incógnita: quem foi ao estádio naquela noite testemunhou muita gente pulando as catracas nos momentos que antecederam o apito inicial. Outros milhares de são-paulinos sem ingresso torceram do lado de fora, acompanhando o jogo pelo rádio.

23.
A renda foi a maior da história do futebol brasileiro até então: 1.072.490.000 cruzeiros. Isso é equivalente a cerca de 2,3 milhões de reais em valores atuais. Os ingressos custaram de 4.000 cruzeiros (geral) a 20.000 cruzeiros (numerada superior) – ou de 9 reais a 44 reais em valores atuais. A arquibancada custava 10.000 cruzeiros, ou 22 reais.

24.
A torcida comemorou o título na Avenida Paulista e no Anhangabaú. Enquanto isso, jogadores, dirigentes e comissão técnica se reuniam no Gallery, famosa casa noturna do empresário (e são-paulino) José Victor Oliva. Telê Santana festejou comendo refogado de bacalhau e bebendo champanhe Moët & Chandon. Antônio Carlos, Ronaldo e Adílson optaram por uísque Ballantine’s. Enquanto isso, Cafu fazia sucesso na pista de dança.

25.
Telê foi dormir só às 4 da manhã, mas às 7 já estava de pé. Entrou em sua Mercedes-Benz branca, colocou um cassete da cantora Simone no toca-fitas e foi direto para o Aeroporto de Congonhas. Embarcou para o Rio e foi descansar em seu sítio na região serrana, onde aproveitaria a folga para pensar na proposta feita pelo presidente José Eduardo Mesquita Pimenta depois da conquista: uma renovação de contrato por mais dois anos. Ele ainda permaneceria no cargo por outros três.

***

* GIANCARLO LEPIANI, jornalista, é um dos criadores do ''Projeto Tóquio'', que revive o dia-a-dia do São Paulo em 1992 no Facebook, Instagram e Twitter.


Entenda o “escândalo da agulha” que está estremecendo o futebol argentino
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Tales Torraga

Um jogador esconde duas agulhas na caneleira para furar os adversários.

Tática antiga, do futebol pré-histórico? Na Argentina não.

Foi que aconteceu no jogo Pacífico de Mendoza x Estudiantes pela Copa Argentina, no último domingo (11). Integrante da Quarta Divisão, o Pacífico eliminou o Estudiantes por 3×2 – a derrota culminou na demissão do técnico Nelson Vivas.

Federico Allende, do Pacífico – Diário Hoy / Reprodução

A história pesadíssima que envolve a façanha foi admitida pelo zagueiro Federico Allende, do Pacífico, que confessou, rindo, que pegava as agulhas na mão para espetar os adversários do Estudiantes: ''Eu matei [o atacante] Otero. O que você quer que faça? O futebol é para vivos. Sabíamos que seria assim, que a gente precisaria sujar o jogo para ganhar'', disse ele à Rádio Vorterix ontem (13).

O Pacífico (olhem a ironia do nome) é uma equipe amadora, formada por pedreiros, vendedores e enfermeiros. A tática imunda foi estudada previamente, segundo o zagueiro que – por supuesto – agora corre risco de sofrer um gancho pesadíssimo.

''Sabemos que o jogador profissional não gosta do choque, da cera, de que joguem sujo com ele. Víamos que era essa a maneira. O futebol é assim. Pobre negro, deve ter me odiado'', seguiu falando Allende, sobre o atacante Otero. ''Escondi duas agulhas na caneleira. Uma estava quebrada. Por sorte, a segunda estava bem.''

O zagueiro disse que se aproveitou do colombiano Juan Otero, de 22 anos: ''Um jogador de mais experiência, como o Braña, eu não espetaria nem f….''.

Atacante do Estudiantes, Otero reconheceu que foi sim espetado: ''Me deram com a agulha quatro vezes. Eu trocava de lado porque me espetavam a cada pouco. Avisei o juiz, e ele não me deu bola. Avisei o auxiliar, e ele começou a rir. Acharam que era mentira, mas me espetavam nas costas'', afirmou o colombiano.


Quem voltou atrás foi Allende, que declarou depois que era tudo brincadeira.

Tarde demais. Sua entrevista desatou um verdadeiro escândalo na Argentina, com dirigentes e ex-jogadores defendendo até o fechamento de portas do Pacífico.

O uso de agulhas e alfinetes é famoso na Argentina desde os anos 60 por ser marca registrada de Carlos Bilardo, meia que brilhou exatamente no Estudiantes, agora sofrendo com o escândalo que desatou enorme briga na sede do clube.

(Sim, é o mesmo Carlos Bilardo técnico campeão da Copa do Mundo de 1986.)

O apelido do Estudiantes, vejam só, é ''pincharrata'' – ''espetar o rato'' – por muitos estudantes de medicina serem torcedores do clube no começo do século passado.

* Atualizado às 16h26: 1) Allende, o zagueiro furão, foi mandado embora do Pacífico na tarde desta quarta-feira.

2) Juan Sebastián Verón, presidente do Estudiantes, acaba de dar entrevista coletiva quase chorando ao analisar o episódio e todos os desdobramentos no clube. ''Vivemos numa sociedade doente demais'', falou, sobre a briga que culminou na saída do técnico Lucas Nardi, que sequer havia assumido o time, por uma antiga desavença com Bilardo. ''Estou com vontade de largar tudo'', ameaçou La Brujita.


Por que Dybala passou a preocupar a nova Argentina
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Tales Torraga

A Argentina ganhou por 6×0 da fraquíssima seleção de Cingapura, mas a lógica goleada desta terça passou despercebida em Buenos Aires. As transmissões de TV e rádio e as conversas nos cafés da gelada capital argentina giraram em torno da nova fraquíssima atuação de Paulo Dybala, apático e negativo como já havia sido contra o Brasil (sem falar da sua desastrosa final de Champions League).

Dybala entra em campo – AFA/Divulgação

O desgaste físico de fim de temporada é evidente, mas atribuir suas más atuações apenas a isto é esconder a verdade. Dybala não é o único cansado, e não é o único a encerrar a temporada. Os outros caíram; mas ele despencou seu nível de jogo.

Por quê?

A resposta está na mente. Dybala, de 23 anos, ainda está bastante travado enquanto assimila que deixou de ser promessa para virar o protagonista e o grande companheiro de Messi na seleção. Tal dificuldade já era apontada por Patón Bauza – ''Paulo precisa acreditar mais em si'' – e está sendo constatada de perto pela nova comissão técnica da seleção argentina, que vê em Dybala um craque como poucos no futebol mundial, mas que precisa realmente digerir melhor as grandes pressões e as grandes cobranças. Ele não é mais um mero rapaz. É ''o'' homem.

Dybala, vale lembrar, caiu em um pranto desesperado quando foi expulso na vitória contra o Uruguai pelas Eliminatórias no ano passado, em cena rara no futebol profissional. Tal amadurecimento deve ser revisto por Sampaoli e seus asseclas. Continuar escalando-o em amistosos sem estar 100% e ser duramente criticado, como foi por Pelé na semana passada, não vai ajudá-lo em nada.

A situação de Dybala é trabalhada também com o auxílio das seleções juvenis.

A comissão adulta considera que o novo aporte oferecido por Juan Sebastián Verón, com um vasto programa de neurociência aos jogadores menores, seria muito útil a Paulo no momento. A questão agora é saber se ele, com sua rotina de estrela, vai ter tempo e energia para este duro (e também sensível) trabalho extra.


Sampaoli indica fim de ciclo para um ex-intocável na seleção argentina
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Tales Torraga

Gonzalo Higuaín precisa se mexer. Se ele não se cuidar daqui para a frente, o amistoso de sexta contra o Brasil terá marcado sua despedida da seleção.

Fontes do blog revelaram uma verdadeira desilusão da nova comissão técnica de Jorge Sampaoli com o desempenho do camisa 9 da Juventus não apenas na estéril partida contra o Brasil, mas também nos treinamentos e no trabalho como um todo.

A falta de sintonia mútua resultou na dispensa do atacante para o amistoso das 9h desta terça (13) contra a inexistente seleção de Cingapura, em Cingapura. Higuaín, Messi e Otamendi não vão atuar por já estarem ''em modo descanso''.

O cabeludo auxiliar Sebastián Becaccece e o Pelado Sampa – La Nación/Reprodução

A amigos, Sampaoli afirmou que viu Higuaín lento e desconectado do restante dos colegas. El Pipita saiu da equipe no intervalo e é bem possível que não volte mais.

El Pelado Sampa diz abertamente que seu preferido é Mauro Icardi, 24, pela polivalência. Higuaín, beirando os 30, não tem físico nem técnica para o mesmo.

As escolhas ofensivas de Sampaoli ficaram bem claras em Cingapura.

Ele preferiu manter Icardi, se recuperando de lesão muscular, e dispensar Higuaín. Gonzalo poderia aproveitar a fraca defesa de Cingapura para ganhar crédito com o técnico e com a torcida que não cansa de apontá-lo como responsável pelas três finais perdidas. El Pipita, de fato, desperdiçou gols na decisão da Copa do Mundo contra a Alemanha e nas duas Copas Américas com o Chile, mas vinha sendo um intocável desde 2009, quando foi convocado pela primeira vez, por Maradona.

Higuaín é o quinto maior artilheiro da história da Argentina: são 32 gols em 68 jogos, média de 0,47 por partida. Seus 32 gols são a mesma quantidade do que fez exatamente Maradona. Com Sampaoli, este passado corre risco de não valer nada.

Tanto Higuaín quanto o sequer convocado Agüero não vão jogar só com o nome. Ambos terão uma conversa cara-a-cara com o Pelado Sampa para ouvir, sem intermediários, o nível de compromisso que a seleção agora vai exigir de todos.

Ou se adaptam – e se entregam – ou estão fora.

Simples assim.


Opinião: Argentina volta a ter um técnico de verdade depois de 11 anos
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Tales Torraga

Acabar com a banca do Brasil foi o de menos.

O 1×0 para a Argentina na verdade deveria ser 1×1 – pela bola nas traves ou porque a seleção de ''Tité'', já consolidada, com cara definida, foi melhor durante parte do primeiro tempo e todo o segundo.

Mas o que enche esta Argentina de esperança é saber que pela primeira vez em 11 anos realmente existe um técnico de elite segurando sua prancheta e gritando o gol como gritamos nosotros, así, re locos.

El Pelado Sampa tem um claro plano original de jogo, e ele pôde ser visto na primeira metade desta sexta em Melbourne. Na segunda parte vieram as variantes, e elas serão muitas, sempre de acordo com o adversário.

Sampaoli não está preso a nenhum sistema.

Sua careca brilhante pensa em todas as direções. É o Miguel Najdorf dos nossos tempos. Tem tudo a oferecer a uma seleção argentina que não contava com uma capacidade assim desde El Maestro José Pékerman, ali entre 2004 e 2006.

Que nos desculpem Coco Basile, Diegote Maradona, Checho Batista, Pachorra Sabella, Tata Martino e Patón Bauza.

Especialmente Sabella. Vice no Mundial de 2014, é claro que não esquecemos. Mas sua carreira de técnico foi curta demais, ao contrário do assistente brilhante e duradouro que foi. Nenhum dos seis esteve no nível que Sampaoli propõe desde já.

(''¡Sampa de mi esperanza, por favor!'', exclama hoje a gelada Buenos Aires.)

Acabar com o 100% do Brasil de ''Tité'' (incrível como um país culto como a Argentina consegue escrever errado nome tão simples, seria trauma de Pelé?) foi menos importante que perceber que 1) pela convocação, e 2) pelas mudanças, que Sampaoli não será morno. Ele será barulhento como o rock que estamos citando há dias. Está em curso uma grande mudança de geração. Só não vê quem não quer.

Mesmo os viejos que seguem, como Di María e Messi, já atuaram diferente.

Di María se colocou bem aberto na esquerda, encarando e tentando cruzamentos venenosos. Messi está menos sozinho, buscando mais tabelas, as poucas que acertou hoje com Dybala já são um bom indício, embora Lio no segundo tempo tenha pensado mais em sua lista de casamento do que no amistoso em si.

O gol foi de Mercado, justamente o primeiro contratado por Sampaoli no Sevilla. Sinal claro: esta Argentina vai contar com a sabedoria – não com a casualidade.

Já não era tempo. Chega de dar vantagem.


Que o Brasil cuide da defesa e das canelas contra a Argentina de Sampaoli
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Tales Torraga

Amistoso? Claro que não. Contra o Brasil nunca é amistoso para a Argentina.

Muito menos agora, no pico de preparação e estresse da batalha contra o Uruguai, em 31 de agosto, no Centenário, pelas Eliminatórias.

Clarín/German Adasti

Que ninguém espere outra coisa a não ser 11 perros argentinos alucinados atrás da bola e dos brasileiros em Melbourne. É, disparado, um dos jogos não-oficiais mais apimentados vividos aqui por esses lados portenhos.

O começo da nova história escrita por Jorge Sampaoli e ilustrada por Lionel Messi deve ser marcada por adrenalina – como o rock que tanto faz a careca de Sampa.

Todos os homens de azul e branco têm muito o que levar a sério nesta sexta.

Desde o camisa 1, Chiquito Romero, que sabe: pelo estilo de jogo de Sampaoli, o goleiro preferido é Nahuel Guzman, pela capacidade com a bola nos pés.

A defesa, então, já está acertada para atuar com a típica rispidez argentina.

Não vai haver deslealdade. É que Gabriel Mercado, Jonathan Maidana e Nicolás Otamendi vão obviamente abusar do roce físico e da intensidade – serão as armas para parar Suárez e Cavani no combate de Montevidéu (e das caneleiras de titânio).

A este trio de zaga vai se juntar também José Luis ''Pela'' Gómez, do Lanús, que se caracteriza tanto pelo fôlego dos 23 anos como em dar tudo em todas as divididas.

Os volantes são cruciais para Sampaoli.

Era assim no Chile com Marcelo Díaz, que lhe oferecia segurança e circulação. Para Pelado Sampa, esta é uma área de campo mais quente que o mate. Vem daí a escolha por dois experientes como Lucas Biglia e Ever Banega. Banega será o 5 clássico, exatamente como jogava no Boca de 2007 com Miguel Ángel Russo.

E ninguém precisa ser muito letrado em futebol para imaginar que o 5 clássico argentino joga de muitas formas – mas nenhuma delas como um santo.

Já falamos de patadas, agora vamos de gambetas, com os quatro fantásticos que Sampaoli escala juntos pela primeira vez: Di María-Messi-Dybala-Higuaín.

Este ataque AAA pode machucar e muito um Brasil que, vale lembrar, vai atuar sem Daniel Alves, sem Marcelo e sem Casemiro. Sampaoli tem uma verdadeira devoção tanto por Di María quanto Messi. E para ele a dupla Dybala-Higuaín é intocável – tão intocável que ele a princípio respeitaria o descanso de ambos depois da final de Cardiff, mas a surra do Real em cima da Juve mudou os planos.

Os planos argentinos são esses.

Os do Brasil, a princípio, são dois: cuidar da defesa. E das canelas.

Esta Argentina vai ser agressiva como um rock n'roll – el nuestro rocanrol, o melhor rock do mundo, e quem discordar é só dar play aqui embaixo.

Está até na capa de hoje do ''Olé''. Cuidem-se, muchachos.