Patadas y gambetas

Libertadores 1992, 25 anos. Veja 25 curiosidades da conquista do São Paulo

Tales Torraga

COM GIANCARLO LEPIANI*

O futebol na América do Sul jamais foi o mesmo depois de 17 de junho de 1992, quando o São Paulo e Telê Santana ensinaram o Brasil a tomar pelo menos um pouco da ''mística copeira'' que caracterizava a Argentina até então.

Aquela histórica decisão entre São Paulo e Newell's Old Boys no Morumbi completa exatos 25 anos neste sábado (17) – mas temos tanto material que abrimos, hoje, sexta (16), nossos posts especiais sobre esta final que resiste ao passar do tempo.

Começamos listando 25 curiosidades sobre o São Paulo x Newell's que terminou…assim. Até os argentinos reconhecem: nem eles, muito mais loucos, fariam melhor.

1.
Enquanto o Newell’s ficou hospedado no Novotel Morumbi (onde a direção pediu à gerência para que fosse tocado tango nos alto-falantes do saguão), o São Paulo se preparou para a finalíssima se isolando no Park Hotel, em Atibaia. Telê Santana contou que os próprios jogadores pediram para sair da capital paulista porque admitiram que havia um excesso de ansiedade para a decisão.

2.
Na semana anterior, em Rosário, a ameaça à concentração do time era outra: o Hotel Presidente, indicado pelo Newell’s para abrigar a delegação são-paulina, recebia ao mesmo tempo um concurso de modelos. O ex-técnico José Poy, que serviu como uma espécie de embaixador do clube na Argentina, se preveniu contra eventuais escapadas dos jogadores antes da partida: colocou o segurança Valdir de plantão na escadaria que levava aos quartos das modelos argentinas.

3.
Os direitos de transmissão da partida eram exclusivos da recém-criada rede OM, retransmitida em São Paulo pela Gazeta. A final foi narrada por Galvão Bueno, com comentários de Roberto Avallone e reportagens de Raul Quadros e Mário Jorge Guimarães. Antes do jogo, a emissora fez uma prévia especial da decisão entrevistando ex-jogadores do São Paulo, como Mauro, Zizinho e Dias, no Morumbi.

4.
Mauro, aliás, vivia um dia especial: jogador do São Paulo por mais de uma década, ele comemorava exatamente naquele dia o trigésimo aniversário da conquista da Copa do Mundo de 1962, no Chile, em que ele foi o encarregado de levantar a taça Jules Rimet.

5.
Raí e outros líderes do elenco negociaram algumas semanas antes a premiação pelo título: 10.000 dólares por jogador. Depois da conquista, a direção resolveu aumentar o prêmio para 15.000 dólares, anunciando o bônus ainda no vestiário. Somado ao valor obtido com a classificação para a final, o prêmio total foi de 20.000 dólares – para os novatos do elenco, isso era o equivalente a um ano de salários.

6.
Entre os contemplados com a premiação estavam o lateral Nelsinho, que disputou cinco partidas da competição antes de receber passe livre e se transferir para o Corinthians, e vários novatos. Na lista dos coadjuvantes que têm esse título no currículo estão o ponta Catê, o zagueiro Gilmar, o volante Mona, o meia Eraldo e o atacante Cláudio.

7.
Reserva de Zetti na final, o goleiro Alexandre teve participação importante na campanha: atuou em três partidas de mata-mata em função da expulsão do titular no Estádio Centenário, contra o Nacional, numa troca de agressões com um atacante uruguaio. O promissor arqueiro de 20 anos, que aparece torcendo ao lado de Telê durante a disputa de pênaltis, morreria um mês depois, na manhã de 18 de julho de 1992, num acidente de carro.

8.
Pintado foi um titular inesperado na campanha: revelado no próprio São Paulo, ele passara anos perambulando por clubes do interior, sempre por empréstimo. Telê pediu seu retorno para ter uma opção de banco. O volante incansável e brigador conquistou seu espaço e chegou à final como peça importante do time – ainda mais num duelo contra o Newell’s. Terminou a partida pendurado com um amarelo e com um corte profundo no queixo .

9.
Aos 17 minutos do segundo tempo, o Morumbi inteiro pede a entrada de Macedo. Depois de começar o ano de forma irregular, sendo inclusive vaiado pela torcida, o atacante revelado pelo Rio Branco vinha de boa sequência de partidas e pedia passagem na equipe. “É hora de sair da toca”, dizia ele na semana anterior.

10.
Telê colocou Macedo em campo três minutos depois do coro da torcida. Ele substituiu Müller.  Gamboa agarrou o atacante na área logo em seu primeiro lance. Depois do jogo, o talismã confessou  que não sabia ao certo o nome do adversário (“É Boys alguma coisa”).

11.
Ainda no vestiário, o herói improvável da final também revelou qual seria a primeira coisa que faria como campeão da América. Contou que, no dia seguinte, voltaria à sua cidade, Americana, para fazer o pedido oficial de casamento à família de sua noiva. “Vou até ajoelhar. Essa não vai dar para driblar.”

12.
O árbitro colombiano José Joaquín Torres Cadenas encerrou o jogo sem nenhum acréscimo, deixando a decisão para os pênaltis – um desfecho que Telê não queria de jeito nenhum. Durante a semana, ele falou abertamente que o objetivo da equipe era evitar a todo custo a definição na marca da cal.

13.
Apesar disso, Telê comandou um treinamento de penalidades às vésperas do jogo. Do lado argentino, “El Loco” Bielsa dispensou essa atividade: ele e seus comandados diziam ter certeza absoluta que resolveriam a parada no tempo normal.

14.
Bielsa, aliás, não acompanhou a decisão no gramado: foi expulso pelo árbitro aos 33 do segundo tempo por exagerar na reclamação depois de um cartão amarelo a Gamboa, por falta violenta em Macedo. Enquanto ia para o vestiário, apareceu na transmissão de TV chamando o colombiano de “hijo de puta” e “ladrón”.

15.
No momento das cobranças de pênalti, a rede OM bateu nos 35 pontos de audiência, o maior ibope da história da emissora. Mais da metade dos televisores ligados estavam sintonizados no canal. Galvão Bueno anunciava os números em tempo real durante a transmissão, em meio a chamadas para um show de Zezé di Camargo & Luciano e para a exibição do controverso filme Calígula.

16.
O pênalti de Gamboa foi cobrado exatamente como Valdir Joaquim de Moraes havia previsto: no canto baixo esquerdo de Zetti. O veterano preparador de goleiros foi a Cáli para acompanhar a semifinal entre Newell’s e América, também decidida nos pênaltis. Trouxe na bagagem uma lista com os detalhes de todas as cobranças dos argentinos. Quando Gamboa se preparou para bater, Zetti já sabia como seria o chute – depois do jogo, contou que tinha total convicção de que o título seria ganho naquele momento.

17.
Valdir Joaquim de Moraes, aliás, desabou em lágrimas depois da defesa de Zetti. Com 45 anos de estrada no futebol, o auxiliar e amigo de Telê Santana afirmava, entre soluços: “Poucas vezes me emocionei tanto na vida”. “Zetti, Alexandre e Marcos são meus três filhos”, disse, citando o titular e seus dois reservas imediatos.

18.
Caso Gamboa acertasse sua cobrança, o último penal do São Paulo seria batido por Pintado. No decorrer da semana, nos treinamentos comandados por Telê, o volante chegou a provocar irritação no técnico ao errar sua cobrança tentando um chute colocado e mandando para fora. Apesar disso, topou ser o último batedor da série. Ronaldo, o único são-paulino a desperdiçar seu pênalti contra o Newell’s, também errou ao tentar um chute colocado no treino.

19.
Raí teve de esperar cerca de 55 minutos no gramado antes de conseguir retornar ao vestiário. Em função da invasão de campo, a entrega da taça, num palanque modesto, atrasou. Depois, o capitão teve dificuldades para driblar a multidão. “Acho que entrei para a história”, dizia, parecendo custar a acreditar no que havia acontecido.

20.
O camisa 10, por sinal, revelara antes da decisão que tinha sonhado várias vezes com o Morumbi lotado nas noites anteriores. Na hora de dar um palpite sobre o placar, porém, Raí errou feio: ele apostava que o São Paulo atropelaria por 3 a 0.

21.
Por falar em previsões furadas, Gamboa havia assegurado que seria o grande herói da decisão. Ainda no vestiário do Gigante de Arroyito, em Rosário, depois da primeira partida da final, o zagueiro prometia, enquanto ajeitava a longa cabeleira: “Seremos campeões e vou fazer um gol de cabeça”.

22.
O público pagante no Morumbi foi de 105.185 pessoas, o maior da história da Libertadores. O público total é uma incógnita: quem foi ao estádio naquela noite testemunhou muita gente pulando as catracas nos momentos que antecederam o apito inicial. Outros milhares de são-paulinos sem ingresso torceram do lado de fora, acompanhando o jogo pelo rádio.

23.
A renda foi a maior da história do futebol brasileiro até então: 1.072.490.000 cruzeiros. Isso é equivalente a cerca de 2,3 milhões de reais em valores atuais. Os ingressos custaram de 4.000 cruzeiros (geral) a 20.000 cruzeiros (numerada superior) – ou de 9 reais a 44 reais em valores atuais. A arquibancada custava 10.000 cruzeiros, ou 22 reais.

24.
A torcida comemorou o título na Avenida Paulista e no Anhangabaú. Enquanto isso, jogadores, dirigentes e comissão técnica se reuniam no Gallery, famosa casa noturna do empresário (e são-paulino) José Victor Oliva. Telê Santana festejou comendo refogado de bacalhau e bebendo champanhe Moët & Chandon. Antônio Carlos, Ronaldo e Adílson optaram por uísque Ballantine’s. Enquanto isso, Cafu fazia sucesso na pista de dança.

25.
Telê foi dormir só às 4 da manhã, mas às 7 já estava de pé. Entrou em sua Mercedes-Benz branca, colocou um cassete da cantora Simone no toca-fitas e foi direto para o Aeroporto de Congonhas. Embarcou para o Rio e foi descansar em seu sítio na região serrana, onde aproveitaria a folga para pensar na proposta feita pelo presidente José Eduardo Mesquita Pimenta depois da conquista: uma renovação de contrato por mais dois anos. Ele ainda permaneceria no cargo por outros três.

***

* GIANCARLO LEPIANI, jornalista, é um dos criadores do ''Projeto Tóquio'', que revive o dia-a-dia do São Paulo em 1992 no Facebook, Instagram e Twitter.