Patadas y gambetas

1992: Por onde andam os principais nomes daquele São Paulo x Newell’s?

Tales Torraga

COM GIANCARLO LEPIANI*

Confira o que fazem hoje os protagonistas da noite de 25 anos atrás no Morumbi, quando o São Paulo derrotou os argentinos do Newell's em uma dramática final.

Tata Martino e Raí antes da decisão – Conmebol/Reprodução

Raí x Tata Martino
O capitão do São Paulo resistiu ao assédio do futebol europeu por mais um ano, conquistando o bi da Libertadores em 1993 antes de rumar ao PSG. Apesar da separação momentânea, sua trajetória continuaria sendo ligada ao clube: em 1998, retornou ao Morumbi para suas temporadas derradeiras como atleta. Já aposentado dos gramados, ocupou brevemente um cargo na administração do clube.

Em 2017, foi nomeado um dos integrantes do Conselho de Administração do São Paulo. Segue buscando não se limitar às fronteiras do futebol: é um dos criadores de uma ONG que se dedica à educação infantil, apresentou uma série sobre Londres na TV a cabo, participa da associação Atletas pelo Brasil e é sócio de uma empresa de gestão de marcas de esporte, cultura e design.

O meio-campista Tata Martino brigou com a diretoria e foi repassado ao Lanús em 1994. Voltou ao Newell's em 1995  – e voltou a brigar com o clube. Saiu de Rosário naquele mesmo ano, mas passou a batizar uma tribuna do Coloso del Parque.

Começou a carreira de técnico em 1998 – depois de penar por quase dez anos, assumiu a seleção paraguaia (2007-2011), o Newell's (2012-2013), o Barcelona (2013) e a seleção argentina (2014-2016). Ganhou um Argentino com o Newell's e uma Supercopa da Espanha com o Barcelona. Hoje treina o Atlanta United, dos EUA. Está com 54 anos.

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Macedo x Fernando Gamboa
Depois de sofrer o pênalti cometido por Gamboa e ganhar a fama de talismã, Macedo jamais emplacou como se esperava. Permaneceu no elenco são-paulino até 1993, mas nunca se firmou como titular – aparecia mais como o alvo mais frequente dos puxões de orelha de Telê do que pelo sucesso em campo.

Transferido ao Cádiz, da Espanha, iniciou uma trajetória quase cigana, alternando boas passagens por clubes como o Santos e a Ponte Preta  com oportunidades desperdiçadas em equipes como Cruzeiro e Grêmio. Seu último clube foi o União Mogi, na Série A-3 do Paulista. No fim da carreira, confessou enfrentar dificuldades financeiras – apesar dos repetidos e insistentes conselhos de Telê, que sempre mostrou preocupação com o futuro do pupilo.

Falastrão, cabeludo e sex symbol, o zagueiro Gamboa cometeu o pênalti no tempo normal e desperdiçou sua cobrança naquela noite no Morumbi. A falha não tirou a pompa de grande zagueiro argentino daqueles tempos. Passou depois por River e Boca, e por pouco não defendeu a seleção na Copa do Mundo de 1994. É técnico desde 2007. Comandou o Newell's por uma curta e negativa passagem em 2008. Está com 46 anos, cabelos curtos e dirige o Gimnasia de Jujuy, da Segundona.

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Zetti x Norberto Scoponi
Depois de conquistar duas vezes a Libertadores e o Mundial de Clubes, Zetti entregou a meta do São Paulo aos cuidados de Rogério Ceni em 1997. Também defendeu Fluminense, União Barbarense e Sport antes de pendurar as luvas. Depois de se afastar do futebol por dois anos, retornou para tentar a carreira de técnico. Rodou por onze clubes, incluindo Bahia, Ponte Preta e Atlético-MG.

A realidade da profissão de treinador no país o deixou desiludido – cansado das frequentes mudanças de cidade, da intempestividade dos cartolas e da bagunça generalizada nos clubes, largou a função, mas não se afastou de vez da bola. Nos últimos anos, abriu uma escola especializada na formação de goleiros e passou a trabalhar como comentarista.

El Gringo Scoponi é tão conhecido pelas suas defesas quanto pelo seu gosto roqueiro. Depois do Newell's, passou para o Cruz Azul do México em 1994, onde ficou até 1998, quando se aposentou no Independiente. Hoje tem 56 anos e desenvolve escolinhas de futebol em Rosário – sempre tomando mate e sempre ouvindo rock. É muito famosa sua recusa à seleção argentina de Daniel Passarella em 1998. ''O Tolo Gallego [assistente do Kaiser] veio me perguntar se eu queria cortar o cabelo e ir para o Mundial, e respondi que só cortaria o cabelo no dia em que ele emagrecesse 30 quilos'', costuma repetir o ex-goleiro.

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Palhinha x Mauricio Pochettino
Palhinha fez história no São Paulo, chegando a três finais consecutivas de Libertadores. Na derradeira, contra o Vélez, desperdiçou sua cobrança na disputa de pênaltis no Morumbi e assistiu à festa do time de Chilavert. Mas ele ainda faria as pazes com o torneio sul-americano: negociado com o Cruzeiro dois anos depois do dolorido vice diante do Vélez, voltou a ser campeão da Libertadores em 1997.

Transferido ao Mallorca, iniciou um périplo que o levaria a defender mais de uma dezena de equipes até encerrar a carreira, em 2006, no Guarulhos. Tentou a carreira de treinador, passando por clubes do interior de São Paulo e Minas Gerais, mas viu sua vida se transformar de vez em 2013, quando se mudou com a família para os Estados Unidos. Agora preside o Boston City, das ligas inferiores do país.

O zagueiro com a responsabilidade de marcar Palhinha era Mauricio Pochettino, que em 1994 já desembarcaria na Europa para seguir carreira do Espanyol e no Paris Saint-Germain. É um dos técnicos do momento no Velho Continente, levando o Tottenham ao vice-campeonato do Campeonato Inglês. Tem 45 anos.

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Ivan x Eduardo Berizzo
Zagueiro revelado na base do São Paulo, Ivan conquistou a América como lateral-esquerdo depois que o clube dispensou Nelsinho no meio da competição e perdeu Ronaldo Luís, machucado, nas fases mais decisivas da Libertadores. Acabou sendo um improvável protagonista: coube a Ivan uma das cobranças de pênaltis na decisão contra o Newell’s. Campeão dos troféus Ramón de Carranza e Teresa Herrera, acabou aparecendo bem e ganhando uma chance no futebol espanhol.

Contratado pelo Valladolid, Ivan construiu uma boa carreira na Espanha, onde permaneceu por quase uma década e defendeu Atlético de Madrid, Alavés e Mallorca, entre outros. Ao retornar ao Brasil, defendeu Sport, União São João e Paulista de Jundiaí – onde foi comandado pelo ex-companheiro Zetti. Em 2007, virou agente Fifa e abriu uma empresa para gerenciar a carreira de atletas.

Zagueiro como Ivan, Eduardo Berizzo não teve o mesmo sucesso, parando na trave naquela decisão por pênaltis. Deixou o Newell's em 1993, defendendo Atlas-MEX, River Plate, Olympique de Marselha, Celta de Vigo e Cádiz. Era técnico do Celta de Vigo e acaba de acertar com o Sevilla para suceder Jorge Sampaoli.

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Telê Santana x ''El Loco'' Bielsa
A conquista de 92 acabou vinculando a carreira de Telê para sempre ao São Paulo. Sondado por clubes da Europa, ele vinha dando pistas de que pretendia encarar uma derradeira aventura internacional antes que fosse tarde demais. O título da Libertadores o convenceu a ficar para o Mundial contra o Barcelona.

As sucessivas conquistas aumentavam o interesse por Telê no exterior (foi apontado até como candidato a substituir Cruyff no Barça). Ao mesmo tempo, porém, os títulos aprofundavam sua ligação com o São Paulo, onde acabou permanecendo até o fim da carreira, interrompida de forma abrupta por uma isquemia cerebral no início de 1996. Telê Santana jamais conseguiu se recuperar completamente. Dez anos depois, morreu em decorrência de uma infecção intestinal, em Belo Horizonte. Ele tinha 74 anos.

''El Loco'' Bielsa está com 61 e é um dos maiores técnicos da história do futebol argentino. A derrota na Libertadores de 1992 o tirou do Newell's, mas a admiração do clube por ele é tamanha que o estádio da equipe se chama nada menos que Estádio Marcelo Bielsa.

Sua carreira pós-1992 seguiu por México, Espanha e Vélez Sarsfield, até assumir a seleção argentina em 1998, no lugar de Daniel Passarella. Ficou no cargo até 2004 depois de um ouro olímpico (Atenas 2004) e de uma eliminação na primeira fase da Copa de 2002. Brilhou também na seleção do Chile, no Athletic Bilbao e no Olympique de Marselha. Assumiu recentemente o Lille, da França, com o seu eterno objetivo de fazer um time pequeno incomodar o establishment mundial.

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* GIANCARLO LEPIANI, jornalista, é um dos criadores do ''Projeto Tóquio'', que revive o dia-a-dia do São Paulo em 1992 no Facebook, Instagram e Twitter.