Patadas y gambetas

Como a filha fez o técnico do momento vencer a bebida e a depressão

Tales Torraga

A atual safra argentina de técnicos é tão boa que dá para destacar um treinador por semana. E neste recorte atual de tempo o merecido aplauso vai para alguém que superou muitas dificuldades antes de sorrir. Estamos falando de Matías Jesús Almeyda – El Pelado, ''O Careca'' -, ex-volante do River e da seleção argentina.

Matías Almeyda – Divulgação/Chivas

Almeyda, 43, conquistou na noite desta quarta (19) seu terceiro título pelo Chivas, do México. Ao vencer o Morelia nos pênaltis, ergueu pela segunda vez a Copa Mexicana. Sua outra taça foi a Supercopa Mexicana do ano passado.

Tão cabeludo quanto raçudo, Matías ganhou fama no River campeão da Libertadores de 1996. Era excelente. Tanto que formou com Simeone e Verón o triângulo defensivo do meio-campo da seleção nas Copas de 1998 e 2002. Aos 31 anos, cumpriu a promessa de parar de jogar cedo para aproveitar a vida.

Mas ''aproveitar'' foi tudo o que Almeyda não fez.

''Passava os dias sentado no sofá, não levantava para nada. Comecei a brigar com a minha mulher e com a família. Bebia demais. Enxugava o vinho sempre'', descreve El Pelado Matías em sua autobiografia ''Almeyda – Alma y Vida'', dos melhores livros já lançados sobre futebol na Argentina.

A franqueza do personagem ajuda.

Almeyda já estava deprimido. E passou a ter crises de pânico. Em uma delas, estacionou o carro em uma estrada e passou a rastejar pelo acostamento, tamanho o descontrole. No mesmo período, depois de tomar cinco litros de vinho, saiu para correr a pé em sua fazenda. ''Achei que se começasse a suar eu conseguiria eliminar o álcool e me sentir bem. Mas comecei a brigar com um boi e caí. Só fui encontrado pela família e acordado depois de um bom tempo.''

O estalo para Matías mudar de vida veio de um desenho da filha, Sofía, de então sete anos: ''Ela fez a família toda. A mãe era uma rainha. E eu, um leão sem dentes e caído. Ali comecei a terapia. Percebi o quanto machucava todo mundo''.

Almeyda logo aliou a terapia aos medicamentos. Aos poucos, começou a se erguer. Estava aposentado fazia cinco anos. Aos 36, traçou como meta voltar a jogar no River. Procurou o então presidente Daniel Passarella e se ofereceu por custo zero.

Reprodução/Olé – outubro de 2011

''O dia em que fiquei no banco e entrei para jogar os minutos finais foi o dia mais feliz da minha vida'', descreveu.

Almeyda passou a se matar em campo.

Sua raça foi tão marcante que até torcedores rivais o pediam na seleção argentina que disputou a Copa América em casa em 2011. Não foi convocado. Semanas antes, chorou junto com o River pela queda para a Segunda Divisão da Argentina.

Ali, no momento mais crítico do time, pendurou a chuteira e virou técnico. Levou o River de volta à Primeira Divisão. Sofrendo horrores, é verdade, mas nada que abalasse a sequência da sua carreira.

Demitido do River por Passarella de maneira sorrateira, foi para o Banfield, onde ajudou a lapidar jogadores como Cazares e Chávez.

Do Banfield para o México. E para os títulos.

Para as mais bonitas páginas de alguém que soube sair das trevas e ser um grande exemplo a qualquer um que passe pelo mesmo. Sos un león, Matías!

La Nación/Reprodução