Patadas y gambetas

Mais que um cigarro: os bastidores de como Loco Osvaldo foi ejetado do Boca

Tales Torraga

O Boca Juniors ejetou o badalado atacante Daniel 'Loco' Osvaldo, 30, no último fim de semana. Desde então, pouco se fala de outra coisa na estridente Argentina.

O script: fumando cigarro no vestiário depois do 1×1 com o Nacional, discutiu com o técnico Schelotto e foi afastado. O clube oficializou a saída na sexta-feira à noite.

O blog apurou o que passou no Uruguai para Osvaldo ter cometido tal harakiri. Diz amar o Boca. Que joga por los colores. E faz isso? Que fará então em outros times?


Primeiro, a questão disciplinar. Quando assumiu, há 77 dias, o técnico Guillermo Barros Schelotto reuniu o Boca e determinou. Muchachos, fumem o que quiserem e onde quiserem, menos no vestiário. Estamos? Deveria estar. Schelotto é famoso por não ceder nada no cumprimento das ordens. No Lanús, barrou e ganhou folgado a disputa parecida com Santiago Silva – ele sim, ídolo, ao contrário de Osvaldo.

Schelotto é o argentino de gelo. Sua frieza reverteu batalhas épicas para o Boca. Como a histórica vitória sobre o River no Monumental na semi da Libertadores 2004.

A frieza foi moldada em grandes palcos e jornadas.

Palcos e jornadas – o que queria Loco Osvaldo semana passada em Montevidéu.

Liberado pelo departamento médico depois de lesão no pé, Osvaldo pouco ligou para as partidas menores do Argentino. Ganhar ritmo, voltar à atividade? Não. Queria jogar por los porotos – ele, 'detentor das qualidades futebolísticas, atacante de 30 anos e Roma, Juventus, Inter de Milão e seleção italiana no currículo'.

A relação entre Osvaldo e Schelotto começou a estragar aí.

Técnico e presidente mandavam uma coisa, jogador fazia outra.

Osvaldo passou a chamar atenção feito bebê. Treinava de sunga porque 'soy loco'.


Desnorteado, seguiu o que se vê em sua carreira: escândalos também fora de campo. Vazamento de nudes, detalhes de namoros violentos, condutas sociopatas – impulsividade, hostilidade e agressividade – em todos os ambientes.

Psicólogos argentinos foram chamados à TV para explicar as razões desta sua 'loucura sem remédio'. Em linhas gerais, a triste e cada vez mais comum situação  'fortuna + fama no primeiro mundo + desestrutura familiar e mental = bobagens'.


Osvaldo foi para o banco em Montevidéu. Contrariadíssimo. Trocou xingamentos com a torcida no alambrado. No gol de Fabra, gritou na cara dos uruguaios.

O preparador físico do Boca pediu desculpas aos torcedores. Passaram a atirar coisas em Osvaldo, que as levava ao quarto árbitro. Foi barrado pelo preparador.

Chamado a campo por Schelotto, entrou só para os últimos cinco minutos.

Aí veio o pior. Fim de jogo, antiga tradição argentina, o time se reúne e se cumprimenta para voltar junto ao vestiário – principalmente em jogos ríspidos, duros e tremendos de frio como o da quinta-feira. Todos juntos. Menos Osvaldo.

Deixou o campo sozinho. Foi advertido por Schelotto. Respondeu mal.

Entrou – de novo sozinho – no vestiário e começou a fumar. O time chegou e não acreditou no que viu. Schelotto imediatamente mandou: ''Apague o cigarro''.

Osvaldo não apagou. Entrou num box. Seguiu fumando. E seguiu discutindo: 'Fumava na Europa, por que não vou fumar aqui?'

Schelotto chamou Orión, Tevez e Cata Díaz e comunicou a imediata saída do Loco.

Osvaldo pegou suas coisas e saiu. Sempre sozinho. Antes, discutiu com o fisioterapeuta: ''Vai cagar!'', gritou, como criança de oito anos.

Está com a família, arrependido e se sentindo muy pero muy mal. Mandou mensagem ao corpo técnico pedindo desculpas, mas achando a pena exagerada.

Nem responderam.

Seu irmão caçula postou no Twitter mensagens na manjadíssima linha ''falam de Osvaldo porque Osvaldo vende, os outros exageram''.

Sempre os outros. Nunca os próprios atos.

Ao perder ontem por 3×1 para o Estudiantes, Schelotto não deixou pingar: ''Osvaldo é assunto encerrado''. Sua única e peremptória declaração.

Amigo de Osvaldo, Tevez mandou bem: ''Osvaldo vai continuar meu amigo. Mas o clube tem regras e lideranças. Cada um reage a elas de um jeito''.

O presidente Daniel Angelici foi menos diplomático: ''Osvaldo é um louco lindo. Mais louco que lindo''. Em conversas reservadas, admite: não o aguenta mais.

Já determinou que assessores toquem o assunto. Não quer mais se encarregar dele.

A defesa do atacante veio de Riquelme: ''Se gostassem de Osvaldo, cuidariam dele. Diriam que um cigarro não é importante. Muitas coisas são inventadas no Boca. Sei bem. É inadmissível que os acontecimentos do vestiário sejam divulgados''.

O Boca foi além. Prega o exemplo aos jovens, o que é de especial atenção na Argentina. Ninguém poderá corrigir nenhum chico se os ídolos fazem barbaridades.

Resta saber como será a vida de Loco Osvaldo daqui para a frente.


Buenos Aires já está tremendamente hostil a ele. Não terá sossego para ir ao seu rock ou para jantar com a mulher, a midiática Jimena Barón. Conseguiu a triste façanha de unir as torcidas de Boca e River, ambas com raiva das suas atitudes.

A situação será muito mais delicada se o Boca, ao contrário do que todos pensam, for eliminado da Libertadores pelo Nacional do Uruguai em plena Bombonera.

Osvaldo chegou ao Boca mostrando uma camisa com a mão espalmada.

Cinco dedos, pelo 5×0 amistoso contra o River.

Saiu jogando cinco minutos.

O mais inacreditável: seu apelido na Argentina é 'Humosvaldo'. 'Vende humo' é o equivalente ao 'enganador' no Brasil. Vender fumaça, vender fumo.

'Fumosvaldo' fumou. E deixou o Boca espumando de raiva.

Na Argentina, transformar loucura em moeda corrente é sim correr – risco de morte.

Osvaldo deveria saber. Se colocou sozinho no paredão.

Porque quis ser louco. E não o jogador de futebol em quem o Boca investiu milhões.