Patadas y gambetas

Quem é o “Pelé branco” argentino (que só fez quatro gols pela seleção…)

Tales Torraga

Boca e River se cruzarão às 17h de domingo em novo superclássico na Bombonera. E o inigualável faroeste argentino conta com um protagonista chamado de ''Pelé branco'' até hoje, 30 anos depois de parar de jogar. Estamos falando de Norberto Alonso, El Beto, um dos principais, talvez o maior, ídolo da história do River Plate.

Alonso nasceu em 1953 e foi revelado no River em 1971 pelo técnico Didi – companheiro do Pelé original no Brasil de 1958. E foi o próprio Didi quem primeiro chamou Alonso de ''Pelé branco''. Beto era excepcional no cabeceio, com a esquerda e com a direita – mas havia, claro, enorme diferença para o Pelé legítimo.

O apelido rompeu as fronteiras do Monumental em 1972. Foi quando Alonso fez, contra o Independiente, o gol que Pelé errou contra o Uruguai na Copa de 1970. El Beto deu um drible da vaca no goleiro só com o corpo e empurrou suave para as redes. No dia seguinte, saiu no ''Clarín'', e Alonso virou o ''Pelé branco'' para sempre – e pobre, pobre mesmo, de quem se arriscar a contrariar um portenho mais antigo.

Figurinha de Alonso no Mundial 78 – Reprodução

A grande incoerência do apelido é a evidente diferença de currículo.

Pelé ganhou três Copas e fez 95 gols pela seleção brasileira. Já Alonso foi campeão do Mundial 78 como reserva – e imposto pelos militares, dizem até hoje. Marcou só quatro gols em suas míseras 19 partidas pela seleção argentina.

Uma das razões que o limitou na seleção foi justamente aquilo que o torna ainda maior aos olhos argentinos: o temperamento. Beto foi um calentón como poucos, e seus atritos com o técnico Cesar Luis Menotti o fizeram passar bem longe do selecionado argentino entre 1974 e 1982, quando viveu seu auge.

Em 1983, quando assumiu Carlos Bilardo, Alonso voltou imediatamente à seleção, mas tinha 30 anos e já havia perdido espaço para a geração de Maradona.

A bravura de Alonso era uma delícia para a torcida. Ele revidava o jogo sujo e as agressões do adversário jamais chorando as patadas. Fazia bem diferente: no lance seguinte, já levava a bola para perto do rival para enfrentá-lo e forçar sua expulsão.

E sabia usar os punhos tão bem quanto os pés. Certa vez, em 1984, pelo River, socou a cara de um torcedor do Chacarita que invadiu o claro para lhe sacanear.

Reprodução

Alonso foi Pelé de verdade nas decisões. Era ele a estrela do River que saiu, em 1975, da fila de 18 anos sem título. Foi com dois gols seus que o River venceu o Boca e deu a volta olímpica em plena Bombonera em 1986. ''Poderiam me matar que eu daria a volta olímpica morto mesmo'', comentou anos depois, sobre a chuva de pedras, latas e cadeados que ele e os colegas enfrentaram naquela tarde.

Foi com ele que o River ganhou a Libertadores e o Mundial de 1986, no ato final da brilhante carreira de Beto, que se aposentou aos 33 anos, ''ganhando tudo o que poderia ganhar'', como ele mesmo diz, e ao olhar sua cara de emoção na noite da Libertadores em Núñez não havia mesmo nada mais a acrescentar à sua trajetória.

Alonso campeão em 1986 – La Pagina Millonaria

Tão amado na Argentina vermelha e branca, Alonso inspirou também duas músicas que seguem fazendo grande sucesso ainda hoje.

Uma é ''El anillo del Capitán Beto'', ''O anel do capitão Beto'', dos rocks mais lindos do gênio Luis Alberto El Flaco Spinetta – está aqui, com os gols de Alonso.

Outra canção bastante conhecida é ''Beto'', de Ignacio Copani, esta, cantando que ''depois de Deus, eu acredito é em Alonso''.

A torcida do River fica louca de verdade com este cântico aqui: ''Maradona, Maradona / Maradona se drogó / No como el Beto Alonso / Que se retiró campeón''.

Un génio, El Beto.