Patadas y gambetas

Análise: Não é o futebol, estúpido. Somos nós

Tales Torraga

Centenas de pessoas olham. Estão perplexas, sorridentes, indiferentes, eufóricas. Mas têm duas coisas em comum. Primeiro: ninguém interfere enquanto Emanuel Balbo desce escada abaixo rumo à morte. Segundo: todas elas nos questionam sobre a verdadeira responsabilidade do futebol na tragédia que não será a última.

Reprodução Cadena3 Córdoba

É tentador, até previsível, cair no futebol como culpado do que ocorreu no domingo. Estava em jogo o clássico de Córdoba, Talleres x Belgrano, claro. Um rapaz de 22 anos escapava como podia depois que alguém lhe acusou do imperdoável crime de ser torcedor do Talleres e frequentar a arquibancada do Belgrano.

''Essa polícia de merda / Não quer entender / Que o Belgrano / É o chefe cordobês'', gritam muitos, contemplando o corpo inerte do rapaz.

O círculo fecha perfeito: barbárie, fanatismo, massas descontroladas.

Mas há espaço para outro raciocínio: o futebol acaba de se oferecer, mais uma vez, como cenário para que os humanos mostrem o pior dos humanos.

Que culpa tem o futebol de abrir sua porta a quem vê o outro humano agonizar e reagir como se estivesse vendo um filme?

Se não existisse o futebol, ficariam imediatamente honestos os animais que roubaram os tênis de Balbo, caído, enquanto ele morria?

O futebol argentino está doente há muito. Está doente na violência dos estádios, nos desatinos dos dirigentes, na corrupção, na urgência de ganhar de qualquer jeito.

O verdadeiro problema é que a sociedade argentina está tão doente quanto o futebol. Somos tão intolerantes de segunda a sábado que não há maneira de não sermos intolerantes também no domingo. O outro nos importa tão pouco que o vemos golpeado debaixo do nosso nariz e não nos move um pelo.

Nos irritamos demais com quem pensa diferente. Por que seria normal que um torcedor de outro time ocupasse nossa arquibancada?

Os que exigem parar o futebol para terminar com todos os males deveriam saber que o tema é muito mais complexo. Provavelmente viveríamos uns dias de calma se suspendêssemos os jogos, os shows, as festas eletrônicas, as manifestações políticas, os protestos. Mas a ''sociedade civilizada'' certamente arrumaria algo para os que não entendem de convivência reaparecerem para estragar tudo.

A luta contra a violência no futebol é ineficaz, se é que alguma vez foi política de Estado. Como combater criminosos se eles são pagos para torcer nas Copas?

Falta educação, falta cultura. Falta respeito ao próximo.

É preciso entender. Ou só demonstrar revolta até o próximo morto.

* Com Sergio Danishevsky, de Buenos Aires. Te debo unos mates, Dani!