Patadas y gambetas

River propõe, mas Aimar abre mão de jogo de despedida: “Quero paz e livros”

Tales Torraga

Bem diferente do Brasil, a Argentina tem grande tradição de armar emocionantes partidas de despedidas para os seus ídolos. Quem quiser chorar, que busque no YouTube: há festas inesquecíveis para Maradona, Palermo, Bochini, Alonso, Francescoli e Ortega – para ficarmos só em seis gigantes do futebol argentino.

Já há inclusive mais duas homenagens agendadas. Em maio, o River vai dar adeus ao Torito Fernando Cavenaghi no Monumental; em dezembro, Juan Román Riquelme, maior nome da história do Boca, vai pisar na Bombonera pela última vez.

Quem teve seu jogo de despedida programado – e o recusou! – foi o Payasito Pablo Aimar. Chamado de ''Palhacinho'' pelos sorrisos que arrancava quando fazia magias com a bola, Aimar, hoje 37 anos, foi procurado pelo River para organizar sua homenagem, mas deu uma resposta muito fora do padrão para a maioria dos jogadores de futebol com os egos infladíssimos: ''Não quis. Não sou centro de mesa, não preciso de aplauso ou aceitação. Prefiro ficar em casa, lendo, em paz''.

Aimar é o entrevistado da revista ''El Gráfico'' que acaba de chegar às bancas em Buenos Aires. Ele destrincha sua carreira iniciada aos 17 anos no timaço que o River tinha em 1996, quando tabelava com Sorín, Ortega e Francescoli. Ficou em Núñez até 2001, quando foi contratado pelo Valencia e iniciou a carreira na Europa que incluiu passagens também pelo Zaragoza e pelo Benfica, onde é deus.

Jogava tão bem que virou o ídolo de infância de Messi – e muitos na Argentina garantem que por isso Messi na verdade era torcedor do River, e não do Newell's.

Defendeu a Argentina nas Copas de 2002 e 2006, e sofreu bastante na mão do Brasil. Pelo River, foi atropelado pelo Palmeiras na semifinal da Libertadores de 1999; pela Argentina, amargou o vice contra a seleção brasileira na Copa das Confederações de 2005 e na Copa América de 2007, outras surras (4×1 e 3×0).

As referências de Aimar em sua entrevista são as de uma pessoa bem resolvida e que não costuma olhar para trás. Pai de quatro filhos (um menino de 12 e três meninas de 10, 7 e 4 anos), prefere se concentrar no presente da sua prole em Buenos Aires e naquilo que fixa como um exemplo: os livros, quase um patrimônio cultural dos portenhos que estão, seguro, entre os maiores leitores do mundo.


O vocabulário perfeito e as ideias bastante acima da média põem Aimar como uma referência não só de futebol em Buenos Aires, mas também de bons conteúdos culturais. Tanto que ele foi chamado por uma banda de rock, a La Franela, para participar do clipe de uma música hermosa, Hacer un Puente, esta aqui.

El Payasito também participou de um livro, Pelota de Papel, escrevendo um conto chamado El Maracaná de la Calle España, narrando um gol de letra que fez diante de uma multidão na sua infância.

Apesar da fama erudita e do estilo tranquilo que apregoa, há muitos que indicam que Aimar, na verdade, guarda uma certa mágoa do River e de Marcelo Gallardo pela maneira que foi dispensado do time há dois anos. Em má forma física devido às lesões, ele não foi relacionado para os mata-matas da Libertadores que o River acabou conquistando. Pablo ficou sabendo da exclusão só quando a lista saiu, o que o contrariou, o fez anunciar a aposentadoria e recusar a possibilidade de se despedir da sua hinchada em Núñez. Só para passar o tempo, ele voltou aos campos: defende agora o Estudiantes de Río Cuarto, da província de Córdoba, onde nasceu. O Estudiantes está na Federal A, o equivalente à Série C no Brasil.