Patadas y Gambetas

Opinião: Voltou Bielsa. Voltou a loucura

Tales Torraga

Marcelo Bielsa finalmente voltou. Depois de 18 meses sem trabalhar, vai dirigir de novo na França, mas o Lille – e não o Olympique de Marselha que revolucionou e sugou até a última gota antes de brigar com os dirigentes e sair em agosto de 2015.


A notícia estourou num domingo de calor sufocante em Buenos Aires, termômetro perfeito para a turbulenta relação da capital argentina com o Loco treinador.

Muitos simpatizantes agregaram seu selo pessoal à novidade e até colocaram a famosa geladeirinha de sua fase Olympique como fotos de rede social. Muitos – a maioria, na verdade – criticaram sem parar: O que ele ganhou? Que revolução ele fez? Quanto dinheiro levo se apostar que ele abandona antes da décima rodada?

Bielsa? O louco que tirou a Argentina da Copa de 2002 na primeira fase e não convocou Román Riquelme no auge?

Não, Marcelo não é profeta em sua terra, apenas na Europa, onde é o mentor de Pep Guardiola e de tantos outros discípulos bielsistas como Diego Simeone, Jorge Sampaoli, Mauricio Pocchetino e longa lista a seguir.

O próximo desafio do Loco é, de acordo com os críticos, a prova final de que ele virou a versão europeia de Caruso Lombardi, o famoso treinador argentino salva descenso mais conhecido pelas bizarrices que pelas proezas em campo.

Bielsa vai assumir o Lille em 1° de julho, mas suas ideias vão ser vistas desde agora. Ele já está praticamente acampado nas instalações do clube que ocupa o 14° lugar e luta para não cair no Francês. Seu assistente dos tempos de Marselha, Frank Passi, já é o treinador – uma óbvia e mera interface do Loco.

Gérard López, presidente do clube, deixou claro que foi Bielsa quem escolheu o Lille – ''pois tem capacidade de escolher qualquer equipe do mundo'' – e que o projeto apresentado o interessou a ponto de voltar a trabalhar depois de tanto.

O que seduziu Bielsa, só ele vai poder dizer naquelas intermináveis coletivas de imprensa. Mas se sabe de longe que sua motivação é formar jovens jogadores (e futuros treinadores), não assumir gigantes como o Barça, o Real ou o Bayern.

Muito longe de ser coincidência, o Lille acaba de contratar seis atletas de 23 anos ou menos, incluindo o badalado atacante holandês El Ghazi, de 21, ex-Ajax.

Bielsa é famoso por aperfeiçoar e inspirar o seu entorno. Desde os jovens aos astros da seleção argentina, há unanimidade em reconhecer no Loco um nível intelectual muitíssimo acima da média, mas sua personalidade impositiva e exigente é uma bomba-relógio sempre na contagem regressiva e no peito dos seus patrões.

Genialidade + desavenças/peleas + times que jogam de maneira espetacular e que sem alertas viram o fio e deixam de ser o que eram. Este é o Bielsa que o mundo conhece. Resta saber se agora, aos 61 anos, ele vai apresentar algo novo, não ceder ao personagem e trabalhar no altíssimo nível pelo qual é reverenciado.

Foi assim no Newell's, no Vélez, no México, na Espanha, na seleção argentina, na seleção chilena, no Athletic Bilbao e no Olympique de Marselha.

Foi assim até a corda estourar. Bielsa é tão complexo, amado e detonado na mesma medida que os bielsistas portenhos têm até um hino, este aqui, do La Pelotas, ''personalmente creo que todo esto es una locura'', uma música das mais lindas do rock argentino, e só ela já é suficiente para desejar ótima sorte ao Loco. ''A única loucura de Bielsa é o excesso de virtudes'', repete Jorge Valdano, e quem somos nós para discordar do maior filósofo do futebol argentino e mundial?