Patadas y gambetas

Ele deu a “água batizada” a Branco. Hoje, pede para que lhe deem a mão

Tales Torraga

Seu nome – Miguel di Lorenzo, o Galíndez – diz pouco no Brasil.

Mas o que ele fez na tarde de 24 de junho de 1990 em Turim, sim. Diz muito.

Galíndez era o massagista da Argentina naquela Copa.

Ele nega. Mas Maradona e Basualdo, dois de seus jogadores, confirmam: foi Galíndez o encarregado de entregar a ''água batizada'' com calmantes ao lateral Branco no paranoico Brasil x Argentina válido pelas oitavas-de-final de então.

Peça-chave naquela trampa, Galíndez tinha 43 anos. Hoje está com 69. E sofrendo com pesadas incertezas com dinheiro, trabalho e, principalmente, com a saúde.

Seu último emprego foi no Argentinos Juniors, onde ficou amigo de Maradona há 40 anos. A saída do Bicho, como o time é conhecido, não foi das mais lindas: Galíndez acabou expulso ao brigar com Riquelme em pleno vestiário no fim de 2014.

Desde então, garante seu sustento trabalhando com Mancuso, o ex-volante do Palmeiras, em partidas ocasionais de showbol pelo interior da Argentina.

Galíndez vive sozinho em La Matanza, na grande Buenos Aires. É ajudado no que precisa por Oscar Ruggeri, ex-zagueiro da Seleção, amigo de longuíssima data.

Mas o que nem Ruggeri nem ninguém tem capacidade de o ajudar de verdade é na complicada situação física que vive hoje depois de décadas de entrega ao cigarro – hábito que perde força, mas que segue massivo na população argentina.

Em uma de suas crises respiratórias no ano passado, houve uma movimentação no San Lorenzo, onde trabalhou por muitos anos, para que Galíndez, muy religioso, viajasse ao Vaticano para encontrar o papa Francisco, famoso torcedor do clube.

A ''vaquinha'' não foi para frente. O assunto logo esfriou.

Assim como esfriou sua relação com o inseparável Diego Maradona.

Em entrevista de 2001 ao jornal ''Olé'', Galíndez contou que na cobrança por pênaltis entre Itália x Argentina na Copa de 1990 foi incumbido por Maradona de ficar xingando – em italiano ensinado pelo próprio Diego – o goleiro Walter Zenga de ''f…. d. p…''. Quando Maradona fez seu gol, correu para abraçar e agradecê-lo.

Era Galíndez quem tratava as muitas lesões de Diego naquele Mundial.

Conhecendo a dificuldade contemporânea do ex-massagista e seu vínculo com a família de Maradona, Galíndez foi colocado ao vivo por uma TV para conversar com Claudia, ex-esposa de Diego nos tempos em que viviam juntos. E desabou a chorar.

Outro constrangimento televisivo ocorreu em 2014.

Pouco antes da final entre Argentina x Alemanha, Galíndez estava dando entrevista quando passou mal e precisou ir ao banheiro. A apresentadora Mariana Fabbiani o pegou pela mão, o levou até o baño andando com dificuldade e pediu o intervalo.

Pegar pela mão.

É o que Galíndez, beirando os 70 anos e muito distante dos tempos de euforia, hoje precisa. O semblante deixa claro suas dificuldades hoy por hoy.

Sem Mundiais, sem grandes cenários, sem histórias polêmicas.

Só sofrimento.